Paulo Cesar Paschoalini

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Pirafraseando

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sexta-feira, 11 de agosto de 2023

MINHA CRÔNICA:

A neblina da PAIsagem 



_____Os primeiros raios de sol anunciavam um novo amanhecer do mês de junho e uma bicicleta dobrava a última esquina, antes de alcançar a rua que levava até a uma Indústria Metalúrgica. Eram os últimos 200 metros do pouco mais de quilômetro e meio que separava a residência daquele destino.

_____O menino de doze anos segura-se no pai não somente com a intenção de equilibrar-se, mas para também proteger-se do frio que vez por outra incomodava seu peito, chegando a provocar crises de bronquite. Na condução do veículo um homem de quarenta e poucos anos aumentava sua atenção, por ser aquela rua relativamente estreita.

_____Embora às seis e meia da manhã não houvesse tanto trânsito, a neblina permitia enxergar em torno de 30 metros e exigia cuidado, já que, como a via possuía duas mãos de direção, qualquer imprudência ou desatenção naquele piso de asfalto poderia acarretar sérias consequências ao ciclista e seu acompanhante.

_____Por detrás do tronco do homem o garoto via uma paisagem esfumaçada, que aos poucos se descortinava. A calçada do lado direito se deitava aos pés de um muro interminável, ladeando uma antiga estação ferroviária desativada havia poucos anos.

_____Olhando para a outra calçada, apesar de o menino conhecer quase de cor as casas que se sucediam, a nitidez que paulatinamente se desenrolava parecia trazer sempre uma surpresa. Algumas vezes era uma residência com luzes acesas contrastando com outras às escuras, uma pessoa que abria o portão, um gato sobre o terraço, um cachorro que se punha a latir... O revelar da névoa sempre vinha com uma singela novidade a ser percebida.

_____Logo mais a bicicleta parava sob a vigilância de um enorme barracão tomando um quarteirão todo, que mostrava seu semblante de engolidor de homens. Feito um formigueiro humano, os operários entravam por uma porta estreita para registrar o horário de chegada. Uma sirene logo começaria a gritar anunciando o início do trabalho pesado, que se estenderia até próximo do anoitecer.

_____Mesmo sendo de poucas palavras, o olhar que o homem da bicicleta dirigia ao filho era carregado de significados como “vai com Deus, cuidado, atenção, e até breve, lá em casa”. Por outro lado, o “tchau, pai!” queria dizer “obrigado por me trazer até aqui”, repleto de admiração e respeito.

_____Já devidamente trajado com o uniforme, o garoto caminhava duas quadras até chegar ao Colégio para a atividade semanal de Educação Física. O ano de 1972 seria o último de aulas desse tipo, porque no ano seguinte estaria dispensado daquela Disciplina. Contudo, ainda precisaria acordar naquele horário, já que começaria a trabalhar o dia todo e estudar no período noturno. Essa era uma exigência da “Dona Necessidade”.

_____Todos os dias, no parte da tarde, o menino caminhava essa mesma distância (ida e volta) para as demais aulas curriculares. Vez por outra, no entanto, ele fazia esse trajeto pouco antes do almoço a fim de levar uma cesta de comida ao pai, para que este pudesse ter uma refeição “mais quentinha”, pois havia entrado para o trabalho por volta das 5 horas da manhã.

_____Quando isso acontecia, o garoto aguardava pelo pai na porta de entrada da Metalúrgica e podia observar o ambiente. O que mais chamava a atenção era o movimento de operários em meio a faíscas que saltavam de panelas em brasa em dias de fundição, além do barulho e calor reinantes. No retorno para casa, era comum ter marcas de pequenas queimaduras na roupa de serviço e algumas vezes até na própria pele.

_____O menino olhava para o pai com orgulho, por saber que tinha sempre próximo de si alguém capaz de vencer labaredas fumegantes, feito fogos cuspidos por dragões. Não bastasse isso, o adulto foi cortador de cana “na palha” quando criança, embrenhando-se pelo canavial, sujeito a picadas de cobras, aranhas e escorpiões. Assim, o filho olhava para o pai como se este fosse um herói. Pode soar como exagero? Não para aquele garoto.

_____Não bastasse superar todas as adversidades da vida, o pai ainda foi capaz de um ato ainda mais marcante e crucial. Quanto este menino tinha 6 anos, um descuido fez com que caísse numa pequena lagoa, que apesar de pouca profundidade, teria sido suficientemente fatal para alguém de sua idade, não fosse a pronta intervenção paterna. Afinal, o menino tinha ou não razões de sobra para ver no pai um Herói?...

_____Mas heróis também envelhecem e adoecem. Por ser de carne e osso, ele esteve ao sabor de tudo que a vida é capaz de trazer, inclusive um recente revés. Quando ouviu o diagnóstico do médico, dizendo que seu caso de saúde era bastante delicado e que teria um tratamento a ser feito, o velho surpreendeu pela serenidade nas palavras:

_____ Eu não tenho do que reclamar. Eu tô com 91 anos e quantos chegam aos 90?... Se tem um tratamento pra fazer, eu vou fazer, então! Eu não sou diferente de ninguém, não é verdade?

_____Assim, os meses foram passando e ele foi perdendo a força, aos poucos vendo-se privado de caminhar, depois quase preso a uma cama e foi ficando mais leve. Cada dia mais leve e mais leve... Até que, finalmente, o herói voou!...

_____Aquele menino, depois de crescido e agora com alguma vivência, escreve este texto dois meses depois da partida do pai. O próximo domingo será o primeiro “Dia dos Pais” sem a presença daquele que lhe deu a vida, salvou sua vida e foi (e sempre será) um exemplo de vida.

_____Hoje em dia, quando passo pela rua que leva onde existia a Indústria Metalúrgica, eu vejo o mesmo muro da antiga estação, que agora é um parque arborizado para caminhadas públicas, e ali a natureza continua a primaverar, veranear, outonear e invernar, seguindo os trilhos de viagens que o tempo leva.

_____Atualmente as manhãs de neblina são mais raras. Mas acredito que o futuro seja semelhante à neblina que vemos na paisagem. Algo que vai se revelando aos poucos diante de nossos olhos e, apesar de pensarmos saber o que vem pela frente, sempre iremos nos deparar com todo tipo de surpresas pelo caminho.

_____Tomando por base a frase dita ao médico pelo meu pai, posso dizer que tenho pouco a reclamar. Afinal, quem tem a dádiva de conviver com seu pai por mais de 60 anos? O que me resta é agradecer (e muito!) por tudo que ele representou e ainda significa na minha vida.

_____Feliz “Dia dos Pais”!... Para todos os pais que ainda têm os filhos ao seu lado... E também para aqueles que se foram e nunca sairão do coração! 


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AUTORPaulo Cesar Paschoalini
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OBSERVAÇÃO: A crônica é uma homenagem ao meu pai, que nos deixou há dois meses, depois de sua luta pessoal. No próximo domingo, dia 13/08, é comemorado no Brasil o "Dia dos Pais" e eu quero deixar esse texto como minha eterna gratidão a ele.
 < CURRÍCULO LITERÁRIO E PREMIAÇÕES > 
COMENTÁRIO: O texto foi publicado no blog da "Revista Vicejar" em 10.08.2023, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador do blog e do site. Para ler mais acesse:
BLOG DA REVISTA VICEJAR: http://revistavicejar.blogspot.com/
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domingo, 8 de agosto de 2021

MINHA CITAÇÃO:

 PAI: 

"Pai é aquele tipo de herói

que nós amamos.

Não voa e nem dispara raios,

mas possui superpoderes

suficientes para nos proteger

dos males do mundo." 


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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
(Protegido por Lei de Direitos Autorais, 9.610/98)
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 < CURRÍCULO LITERÁRIO E PREMIAÇÕES > 
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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

MINHA CRÔNICA:

Fábrica de heróis


A mídia costuma colocar em evidência pessoas e seus grandes feitos, mas às vezes exagera! É comum nos depararmos com capas de revistas ou manchetes de jornais, dando ênfase a essa ou aquela figura de destaque. Um fato marcante para mim foi a capa da “Veja”, conhecida revista semanal, quando numa das edições de agosto de 2010 (portanto, já faz tempo) trouxe uma foto do nadador brasileiro César Cielo, com a seguinte manchete: “Enfim, um herói”. Sem dúvida uma justa homenagem a esse atleta. No entanto, o que me chamou a atenção foi o termo “herói”. Mas, afinal, necessitamos realmente de heróis?

Eu sempre tive comigo que “herói” é aquele sujeito capaz de colocar a própria vida em risco, para salvar alguém ou algo de muita relevância, muito próximo ao mencionado no dicionário Aurélio: “Homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade”. É claro que tem expressivo valor o fato de Cielo ter batido recorde e conquistado duas medalhas de ouro no Mundial da modalidade, realizado em Roma. Por esse feito extraordinário, eu diria que ele é o mais novo ídolo do esporte brasileiro. Porém, seria isso um ato de heroísmo?

Não sei se rotular alguém de herói é imposição da mídia ou necessidade da sociedade. Curiosamente, a imprensa tem usado o “herói” sempre vinculado a uma figura do esporte. Como exemplos, a crônica esportiva se esbaldou em chamar a seleção de 1970, com Pelé & Cia., de “Heróis do Tri”. Depois, recordo que o termo foi amplamente associado à figura de Ayrton Senna, tanto durante sua brilhante trajetória automobilística, como, principalmente, depois de seu falecimento, em maio de 1994. Meses depois a mídia já tratou de cultuar a figura de Romário como novo “herói”, em razão da conquista do tetracampeonato na Copa do Mundo daquele mesmo ano.

Por sua vez, assim que o “Baixinho” começou a sair de cena, inclusive pela dificuldade um driblar polêmicas fora dos gramados, eis que surge em 1997 o tenista Gustavo Kuerten, que conquistou pela primeira vez o título de Roland Garros, um torneio do chamado Grand Slan, que seria a “nata” do tênis mundial. A repetição da conquista por mais duas vezes e o carisma de Guga colocaram-no como “herói” por algum tempo, até que o “cargo ficou vago” à espera de um novo sucessor.

Aí, então, chegou César Cielo. Convém lembrar que, a cada interlúdio, dava-se destaque aos “heróis” de algumas das diferentes gerações do vôlei. Depois de o Brasil sagrar-se campeão da Copa do Mundo de 2002, foi a vez de Ronaldo Fenômeno e, recentemente em 2016, nos Jogos Olímpicos no Brasil, Neymar tornou-se o grande herói, devido a conquista inédita da medalha de ouro no futebol.

Entendo que o uso estaria inadequado, quase que banalizando um termo tão nobre. Entretanto, a vulgarização da palavra “herói” alcançou seu ápice quando participantes dos inúmeros BBB eram chamados de “meus heróis!”. Salvo nesse caso, não me recordo de ter ouvido o termo “herói” em qualquer outro segmento que não o esportivo. Mas será que heróis são somente aqueles que praticam esporte? Não existiria outro caminho para atos de heroísmo? O ideal não seria classificá-los como “ídolos”, o que, certamente, já seria uma grande deferência a atletas de renome?

A meu ver, heróis são aqueles anônimos, que diuturnamente se dedicam e se arriscam para melhorar ou salvar a vida de outro ser humano. Destaque para os profissionais da área de saúde, que atendem pessoas com doenças infectocontagiosas, por exemplo. Também os bombeiros, que frequentemente arriscam suas vidas, ou policiais, que, armados de um simples 38, enfrentam marginais munidos de armas de alto calibre. Convém lembrar que os meios de comunicação dão muito mais destaque para fatos envolvendo policiais corruptos, que para aqueles feridos ou mortos no cumprimento do dever.

Além desse, podemos também incluir os professores, com a sua vocação de salvar a sociedade da ignorância. Enfim, temos, principalmente, o cidadão comum, que arregaça as mangas toda vez que uma catástrofe natural se abate sobre determinadas regiões do país. Ou, ainda, os mais diversos trabalhos voluntários praticados por abnegados no Brasil e no mundo afora.

Para a maioria, as palavras “heróis” e “ídolos” se confundem. Existem algumas diferenças que entendo como significativas e relevantes. O ídolo é aquele sujeito que treina exaustivamente para aprimorar os dons que a natureza lhe deu, seja no esporte ou nas mais diversas expressões artísticas, algo que merece destaque na imprensa quando bem sucedido. Já o ato de heroísmo é aquele quase sempre praticado por alguém do povo, que decide agir com bravura numa fração de segundos. Na maioria das vezes é movido por gestos de humanidade, mesmo sem se dar conta do perigo a que está se submetendo.

É curioso notar que um ídolo normalmente é elevado à condição de herói e mantém seu lugar no “Olimpo” até quando perdure o interesse da mídia. Durante esse período, tem a oportunidade de engordar a sua conta bancária e ocupar as principais manchetes. Quando morre, é reverenciado pelos órgãos de comunicação e sua perda é lamentada por outros que, na maioria das vezes, também já se beneficiaram de exposições nessa oportunidade.

Já o cidadão comum, quando comete um verdadeiro ato de heroísmo, nunca alcança a condição de ídolo, sendo condenado ao ostracismo. Seu padrão de vida será o mesmo de sempre e o interesse dos jornais e revistas, quando acontece, é de umas poucas linhas no rodapé de uma coluna qualquer, mantendo-se para sempre no anonimato, até que a morte o leve daqui, sem que tenha recebido o merecido reconhecimento.

Por falar em termos usados pela imprensa, eu destacaria um outro, em particular, largamente publicado: “Congresso”. Em muitos casos, sempre associou-se o termo “Congresso” a eventos científicos mundo afora, como Congresso Latino-Americano, ou Mundial, por exemplo. Pessoas merecedoras de imensa admiração e respeito reconhecido. Hoje o termo está tão desgastado que os pesquisadores e cientistas chamam tais eventos de Simpósios ou Conferências, talvez por não carregarem o rótulo pejorativo de “congressistas”.

Aí o leitor poderia perguntar: o que tem a ver “ídolo” e “herói” com “congresso”? De fato, rigorosamente nada (talvez). No Congresso Nacional, em Brasília, não temos nenhum ídolo, muito embora na reeleição de muitos deles fique caracterizada certa idolatria de parte do eleitorado. Herói, com certeza, nenhum deles é. Pelo contrário, a maioria está mais para “anti-heróis”, ou porque não dizer, “vilões”.

A única relação entre o início e o final desse texto é que agora eu chego a conclusão de que realmente estamos precisando de herói... Mas herói de verdade! Aliás, super-herói! Se bem que eu creio que apenas UM não conseguiria dar conta de tantos inimigos do povo. O melhor seria que tivéssemos muitos super-heróis, já que o que mais temos ouvido ultimamente é que existe no cenário político “dessa gente” tantas denúncias, que chegam até a “sair pelo ladrão”.

Ladrão???... Opa!!!...

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TEXTO: Paulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto foi publicado na "Revista Vicejar", em 09.11.2018, onde o autor é colaborador, sendo que seus textos são publicados regularmente. Para ler mais acesse:
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LINK DO TEXTO:
http://revistavicejar.blogspot.com/2018/11/fabrica-de-herois_20.html.
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domingo, 12 de agosto de 2018

MINHA CITAÇÃO:

Pai

"Pai é aquele tipo de herói que nós amamos. Não voa e nem dispara raios, mas possui superpoderes suficientes para nos proteger dos males do mundo."

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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domingo, 13 de agosto de 2017

MINHA CITAÇÃO:

Pai

“Pai é aquele tipo de herói que nós amamos. Não voa e nem dispara raios, mas possui superpoderes suficientes para nos proteger dos males do mundo.

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO:
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domingo, 14 de agosto de 2016

MINHA CITAÇÃO:

Pai

"Pai é aquele herói que amamos. Não voa e nem dispara raios, mas possui superpoderes suficientes para nos proteger dos males do mundo."

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TEXTO: Paulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO:
Hoje é o "Dia dos Pais", pois no Brasil essa data é comemorada no segundo domingo do mês de agosto. Para todos os pais que são vistos como verdadeiros heróis pelos seus filhos.
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

MINHA CRÔNICA:


Fábrica de heróis

A revista “Veja”, da Editora Abril, em uma das edições de agosto de 2009 trouxe em sua capa uma foto do nadador brasileiro César Cielo, com a seguinte manchete: “Enfim, um herói”. Sem dúvida uma justa homenagem a esse atleta nascido em Santa Bárbara D’Oeste, estado de São Paulo, que fica coladinha com Piracicaba, cerca de 30 km. O que chamou a atenção, no entanto, foi o termo “herói”, que eu me perguntei se seria o mais adequado. Afinal, necessitamos realmente de heróis?

Ao longo de minha vida, tinha aqui comigo que “herói” é aquele sujeito capaz de colocar a própria vida em risco para salvar alguém ou algo de relevância para a comunidade onde vive, que é mais ou menos próximo a uma das definições do Dicionário Aurélio: “Homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade”.

O termo “herói” muitas vezes pode ser utilizado no contexto de “salvador”, ou, mais precisamente, o desejo latente e a necessidade urgente de se ter um “salvador da pátria”, que possa nos redimir de tantos absurdos. Isso nos remete à uma frase de Millôr Fernandes: “Um país que precisa de um salvador, não merece ser salvo”.

É claro que tem expressivo valor o fato de ter batido o recorde mundial de natação e a conquista de duas medalhas de ouro no Mundial da modalidade realizado em Roma. Por esse feito extraordinário eu diria que ele é o mais novo ídolo do esporte brasileiro, mas seria realmente isso um ato de heroísmo?


Não sei ao certo se rotular alguém de herói é uma imposição da mídia ou uma necessidade da sociedade. Curiosamente, a mídia tem usado o “herói” sempre vinculado a uma figura do esporte.

Como exemplo, lembro-me muito vagamente que a crônica esportiva se esbaldou em chamar a seleção de 1970, de Pelé & Cia. de “Heróis do Tri”. Depois disso, recordo que o termo foi amplamente associado à figura de Ayrton Senna, tanto durante sua brilhante trajetória automobilística, como, principalmente, depois de seu falecimento, em maio de 1994. Com a morte desse piloto, meses depois a mídia já tratou de cultuar a figura de Romário como novo “herói”, em razão da conquista do tetracampeonato na Copa do Mundo daquele mesmo ano.

Assim que o “Baixinho” começou a sair de cena, devido às dificuldade um driblar polêmicas fora dos gramados, eis que surge em 1997 o tenista Gustavo Kuerten, que conquistou pela primeira vez o título de Roland Garros, um torneio do chamado Grand Slan, que seria a “nata” do tênis mundial. A repetição da conquista por mais duas vezes e o carisma de Guga colocaram-no como “herói” por muito tempo, até que o “cargo” ficou vago a espera de mais um sucessor. Depois da Copa de 2002, foi a vez de Ronaldo 
“Fenômeno”. Aí chegou César Cielo, mencionado no início dessa crônica. Convém lembrar que a cada interlúdio era a vez de dar destaque aos “heróis” de algumas das diferentes gerações do vôlei.

Entendo que o uso estaria inadequado, quase que banalizando um termo tão nobre. Entretanto, a vulgarização da palavra “herói” alcançou seu ápice quando Pedro Bial, que em certas ocasiões se comporta como um ex-jornalista travestido de apresentador barato de Reallity Show, passou a se referir aos participantes dos inúmeros Big Brothers como “meus heróis”.

Salvo esse caso, não me recordo de ter visto ou ouvido o termo “herói” ser usado com ênfase em qualquer outro segmento que não o esportivo. É inevitável uma indagação: será que heróis são somente aqueles que praticam esporte? Não existiria outro caminho para atos de heroísmo? O ideal não seria classificá-los como “ídolos”, o que, certamente, já seria uma grande deferência a atletas de renome?

A meu ver, heróis são aquelas pessoas anônimas, que diuturnamente dedicam, ou mesmo arriscam a sua vida para melhorar ou até salvar a vida de outro ser humano. Eu destacaria primeiramente o pessoal da área médica, que atende pessoas com doenças infecto-contagiosas, por exemplo. Também os bombeiros, que arriscam a vida em ocorrências que requerem sua presença. Ainda, policiais, que armados de um simples 38, enfrentam marginais munidos de “bazuca”. Vale destacar que a mídia dá muito mais destaque para fatos envolvendo policiais corruptos do que para aqueles que se ferem ou morrem no cumprimento do dever e que, diga-se de passagem, são muito mais do que imaginamos.

Além desses, temos ainda o cidadão comum que arregaça as mangas toda vez que uma catástrofe natural se abate sobre uma determinada região do país, assim como aconteceu alguma vezes em Santa Catarina. Ou, ainda, os mais diversos trabalhos voluntários praticados por abnegados Brasil afora.

Para a maioria das pessoas, as palavras “heróis” e “ídolos” se confundem. Existem algumas diferenças que para muitos pode ser mínima, mas que vejo como sendo significativas e relevantes: o ídolo é aquele sujeito que treina exaustivamente para aprimorar os dons que a natureza lhe deu, seja no esporte ou nas mais diversas expressões artísticas. Isso é de fato algo grandioso, que merece destaque na imprensa quando bem sucedido.


Já o ato de heroísmo é aquele quase sempre praticado por alguém do povo, que decide agir movido pela bravura, numa fração de segundos. É quase sempre movido por gestos de humanidade, mesmo sem se dar conta do risco a que está se submetendo.

É curioso notar que um ídolo normalmente é elevado a condição de herói e mantém seu lugar no “Olimpo” até quando perdure o interesse da mídia. Durante esse período, tem a oportunidade de engordar a sua conta bancária e ocupar as principais manchetes. Quando morre, é reverenciado pelos órgãos de comunicação e sua perda é lamentada por outras pessoas que, na maioria das vezes, também já se beneficiaram de exposições na imprensa.

Já o cidadão comum, quando comete um verdadeiro ato de heroísmo, nunca alcança a condição de ídolo, sendo condenado ao ostracismo. Seu padrão de vida será o mesmo de sempre e o interesse dos jornais e revistas, quando acontece, é de umas poucas linhas no rodapé de uma coluna qualquer, mantendo-se para sempre no anonimato, até que a morte o leve daqui, sem que tenha recebido o merecido reconhecimento.

Para finalizar, por falar em termos usados pela imprensa, eu destacaria um outro, que tem sido largamente publicado: “Congresso”. Hoje em dia por causa dos senadores, outrora por mazelas de deputados. Lembro-me que quando adolescente era guarda-mirim no CENA - Centro de Energia Nuclear na Agricultura, em Piracicaba-SP, trabalhando como uma espécie de “office boy”. Uma das minhas funções era entregar correspondências aos pesquisadores, nos diversos departamentos. Era comum ver cartas do exterior relativas aos mais variados tipos eventos. Congresso Latino-Americano, Congresso Ibero-Americano, Congresso disso, Congresso daquilo... Eu sentia imensa admiração e respeito por aqueles “congressistas”.

Hoje o termo está tão desgastado, porque não dizer deteriorado, que, pelo jeito, os pesquisadores e cientistas resolveram optar por chamar tais eventos de Seminários, Simpósios ou Conferências, talvez por não carregarem o rótulo pejorativo de “congressistas”. Aí você perguntaria: o que tem a ver “ídolo” e “herói” com “Congresso”?

De fato, rigorosamente nada. No Congresso Nacional não temos nenhum ídolo, muito embora na reeleição de muitos deles fique caracterizada uma certa idolatria de parte do eleitorado. Heróis, com certeza nenhum deles é. Pelo contrário, a maioria está mais para “anti-heróis”, ou porque não dizer, “vilões”.


Eu poderia dizer que a única relação entre o início e o final do texto, é que agora eu chego a conclusão de que realmente estamos precisando de heróis... Mas heróis de verdade... Aliás, super-herói... Creio que apenas um não conseguiria dar conta de tantos inimigos do povo. O melhor seria que tivéssemos muitos super-heróis, já que o que mais temos ouvido ultimamente é que existem maracutaias de congressistas “saindo pelo ladrão”.

Ladrão???... Opa!!!

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini

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COMENTÁRIO:
Este texto está disponível na intranet do Banco do Brasil S/A - Acesse Sua Área - Cadernos - Palavras Cruzadas, publicado pela VITEC-Brasília em 10/09/2009 e acessível para mais de 100.000 funcionários.
Muito embora tenha sido publicada em 2009, entendo que o conteúdo é pertinente, já que estamos em plena época de eleições, onde muitos tendem a buscar por "heróis" nessas ocasiões.
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