Paulo Cesar Paschoalini

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Pirafraseando

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terça-feira, 24 de março de 2026

MEU TEXTO:

ARTES DA VÓ DAVINA: 

_____Tive em minha vida uma artista muito especial na família; minha mãe, Dona Davina. Além de todos os atributos de uma dona de casa tradicional, ela fazia peças de arte maravilhosas. Nos seus 92 anos de vida, entre tapetes, almofadas e colchas (sua especialidade), acredito que ela já deve ter feito perto de duzentas peças. Estima-se que somente de colchas de retalhos, ela tenha feito pelo menos 60 unidades... Mas acredito que tenha sido mais do que isso! 

_____Nas fotografias abaixo é possível ver um pouco do seu grande talento, costurados com divina habilidade ao longo do tempo. 

Clique sobre as imagens para ver mais detalhes: 

      

Esta publicação é complemento da crônica intitulada “Divinos Retalhos”, publicada no blog da Revista Vicejar em 24.03.2026. 

LINK: https://revistavicejar.blogspot.com/2026/03/divinos-retalhos.html . 

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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domingo, 1 de março de 2026

MINHA CRÔNICA:

Convivendo com especialistas 



_____Acredito que muitos de nós esperam ansiosamente pela chegada do fim de semana e, entre outras coisas, sair com os amigos para comer algo, acompanhado de uma bebida para ‘molhar as palavras’ e relaxar um pouco com conversas descontraídas...

_____Relaxar?... Será???

_____Tudo começa com o pedido de uma simples cerveja. É só você mencionar a marca de sua preferência que sempre aparece algum expert em bebidas para dizer que uma outra é mais saborosa. Ou então, se for pedir um tipo de vinho, vai melhor se for acompanhar determinada comida. Também, que não deveria tomar nada que tivesse certo teor alcoólico.

_____Depois vem o impasse por aquilo que se tem a intenção de comer. Não é bom pedir nenhuma fritura ou coisa muito calórica, nem muita massa e menos ainda essa ou aquela porção, que ‘é só gordura’! Essas polêmicas dizem ser calcadas em ‘leituras saudáveis’ ou orientações médicas. Mas eu não saí de casa para ir a um consultório, não é mesmo?!

_____Se você, por acaso, alegar que pode comer de tudo, uma vez ou outra, porque durante a semana vai fazer exercícios, aí é que a coisa piora! Se sua atividade física for no período da manhã, dirão que o melhor seria no final da tarde. Se você está acostumado a correr, deveria somente caminhar.

_____Se gosta de andar de bicicleta, é melhor tomar cuidado com o trânsito. Se frequenta uma academia, deve escolher com atenção os aparelhos que for utilizar. Se aquilo que fizer durar em torno de meia hora, não adianta. Se demorar uma hora ou mais, aí é loucura. Se... se...

_____Todos os amigos ali sentados ao seu lado, para fazer você se esquecer do estresse da rotina, sabem sempre tudo o que é melhor para VOCÊ! Entretanto, se observar com atenção, é provável que muitos deles estejam, por exemplo, um pouco acima do peso. Ou, ainda, depois de algum tempo de conversa, ficará sabendo que alguns tomam esse ou aquele medicamento, seja pra isso ou aquilo... E por conta de questões relacionadas à saúde DELES!

_____Por falar em remédios, se você disser que faz uso de complemento/suplemento alimentar ou toma pílulas para regime, dirão que não adianta. Perguntarão se você leva muito a sério o tal regime e, em caso positivo, alertarão para ter cuidado com o rigor. Em caso de fazer uso de homeopatia, ouvirá que isso é ‘bobagem’.

_____De um modo geral, curiosamente todos saberão ‘com autoridade’ e, principalmente, ‘conhecimento de causa’ sobre o que é ideal para você comer e beber, mesmo não sabendo sequer o que é bom para cada um deles.

_____Em se tratando de saúde, cheguei à conclusão de que só devo levar mesmo a sério aquilo que for dito pelo meu médico, depois de embasado em criteriosos exames. E somente assim se, eventualmente, ele me receitar algo pertinente ao meu caso específico. Então, a partir daí estarei disposto a pensar em fazer o que for necessário.

_____Se a orientação do doutor for, por exemplo, para que eu não possa mais ter esse luxo de ‘liberar a boca’ nem ao menos no fim de semana com amigos, para ‘relaxar’...

_____Bem, aí, não vai ter jeito mesmo. Muito a contragosto, eu me verei forçado a finalmente mudar...

_____... Mudar de médico!!! 



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AUTORPaulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto foi publicado no blog da "Revista Vicejar" em 25.02.2026, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador do blog e do site. Para ler mais acesse:
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

MINHA CRÔNICA

O sonho não acabou... 



“... Me diz como pode acontecer, um simples canalha mata um rei, em menos de um segundo.”

(Beto Guedes e Ronaldo Bastos em “Canção do novo mundo”)

 

_____No dia 8 de dezembro de 1980, o mundo despertou perplexo com o assassinato de John Lennon. A boca da arma de Mark David Chapman, um fanático (sempre eles!), calou para sempre a voz do ex-Beatle, com quatro tiros à queima-roupa. Uma atitude que até hoje suscita dúvidas quanto ao que teria motivado esse lunático a cometer tal ato de covardia. Para alguns, Chapman foi apenas o executor e não o mentor do assassinato. De acordo com algumas fontes na internet, a imagem acima, escolhida para acompanhar este texto, seria o último registro de Lennon vivo, cuja fotografia captura também parte do rosto do assassino, no canto direito (site: revistabula.com).

_____Arquivos do FBI divulgados na década de 90 revelaram uma preocupação das autoridades dos Estados Unidos com o artista, que tinha um estilo de vida pouco convencional para a época. Por ser uma figura polêmica, seus passos eram seguidos de perto e cada atitude de Lennon era objeto de investigações secretas e consequente fichamento por parte do “Bureau” norte-americano, que o considerava uma ameaça, já que ele cometia o “absurdo” de se posicionar abertamente contra as guerras, especialmente a do Vietnã, e pregava a paz através de manifestações públicas ou em suas composições, com em “Give peace a chance” (Dê uma chance à paz), gravada em 1969.

_____Porém, uma de suas maiores obras na carreira solo foi gravada dois anos mais tarde. “Imagine” se tornou o hino de uma geração e, com os acontecimentos do mundo de hoje, está mais atual do que nunca. 

_____“... Imagine não existir países. Isso não é difícil de se fazer. Sem matar ou morrer e sem religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz...”

_____Embora essa composição nos convide a uma profunda reflexão, muitos consideram seu conteúdo utópico. Para Lennon, no entanto, trata-se de um sonho perfeitamente possível de tornar-se realidade. 

_____“... Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só.” 

_____Mais de cinco décadas depois de “Imagine”, a sociedade evoluiu tecnologicamente e a vida foi reduzida a convivência digital. Entretanto, algumas coisas não mudaram e até se acentuaram. Quanta violência e quanto matar e morrer em nome de religiões ou fronteiras! Como é difícil viver em paz no mundo atual!... Na música “Comentário a respeito de John” o compositor Belchior (falecido em 2017), em parceria com José Luis Penna, destaca a dificuldade em se conseguir a felicidade e a paz: ... John, eu não esqueço, a felicidade é uma arma quente...

_____Realmente, pode parecer impossível mudar o mundo todo. Mas uma grande transformação só começa a se processar através de pequenas ações individuais. Basta começarmos a mudar a nós mesmos e, a partir daí, singelas mudanças para melhor ocorrerão, mesmo que seja apenas no pequeno mundo ao nosso redor. Quem sabe assim, aos poucos, um dia “o mundo será um só”, como sonhava John Lennon. 

_____Apesar de lembrar os 45 anos da morte de Lennon, convém mencionar os demais integrantes do Beatles, que não só marcaram uma geração como continuam a influenciar músicos atuais. Paul McCartney esteve recentemente no Brasil para apresentações inesquecíveis, sempre com ingressos esgotados. Tudo o que for dito sobre McCartney deixará cada vez mais evidente sua genialidade, talento e carisma, ainda arrastando multidões. Melhor do que falar sobre ele é ainda ter o privilégio de assistir pessoalmente ao seu show “Got Back” em 07/12/2023, no Allianz Parque, em São Paulo, acompanhado de minha mulher e minha filha. Um momento inesquecível!

_____Já Ringo Starr mantém-se discreto e, pelo que consta, com pouca aparição pública, mas noticiários informam sobre eventuais trabalhos de estúdio, além da repercussão de algumas de suas entrevistas. 

_____Sobre George Harrison, outro ex-Beatle falecido, pode-se dizer que o guitarrista dos Beatles era alguém sensível e talentoso e, por isso mesmo, não menos importante que os demais. Encontrou o espaço que precisava para mostrar que também era um compositor extraordinário, também na carreira solo. Além do mais, deixou evidenciada a sua tendência espiritual, principalmente quando gravou em 1971 a música “My sweet Lord”. 

_____Participou ativamente de eventos em favor de causas humanitárias. Também foi vítima de um atentado, sendo esfaqueado dezenas de vezes por Michael Abram, um fanático (olha outro aí!) que invadiu a sua casa em Londres em 1999. Apesar desse fato isolado, viveu em paz consigo mesmo e sempre buscando uma integração harmoniosa com o universo, até ser vencido por um câncer, em 2001. 

_____Apesar de suas músicas imortais, cada integrante dos Beatles seguiu um caminho semelhante a qualquer outro mortal. Assim, cada sonhador faz dos seus sonhos a sua realidade... E depois as cortinas se fecham e ele sai de cena do palco da vida.

_____Em 1970, John Lennon anunciou o fim dos Beatles, com a icônica frase “the dream is over”. Mas, na verdade, o sonho não acabou. Apenas a cada dia se renovam os sonhadores.



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AUTORPaulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto foi publicado no blog da "Revista Vicejar" em 08.12.2025, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador do blog e do site. Para ler mais acesse:
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sábado, 30 de agosto de 2025

MINHA CRÔNICA:

Luzes que vagam na lembrança 



_____Desde o início deste ano tenho me lembrado com frequência da casa onde nasci. Uma casinha bem simples, construída no fundo de um terreno, e que tinha apenas três cômodos. Sala, cozinha e um único quarto, com um banheiro do lado de fora, próximo a um pequeno rancho que abrigava o tanque de lavar roupas. 

_____Ficava na última rua do bairro, sem asfalto. Para dar mais “segurança”, uma cerca de bambu foi “edificada” na frente da casa, a poucos metros do acanhado terraço da sala. O chão de todos os cômodos era de tijolos e no alto as telhas eram visíveis, pois não havia forro. Isso quer dizer que no verão o interior da casa era “um forno” e no inverno as frestas não davam conta de segurar o vento frio, se muito forte. 

_____Moramos nela até quando eu tinha pouco mais de seis anos e depois mudamos para uma nova casa na frente do mesmo terreno, dessa vez com todo o “luxo” de se ter quatro cômodos; ou seja, um dormitório a mais. Desse modo, deixamos de habitar uma casinha de fundo, para viver numa outra em que um vitrô e uma janela tinham a calçada por companhia. A rua continuou sem ser pavimentada ainda por mais algum tempo. 

_____Apesar das dificuldades, tenho muita saudade de como a vida era simples. Sem ter aparelho de televisão, ao anoitecer a simplicidade convidava as crianças a olharem para o céu e observar as estrelas. Ou, então, admirar as “estrelas voadoras”, querendo iluminar as verduras da pequena horta, ou esparsas margaridas na cabeceira dos poucos canteiros. 

_____Era maravilhoso ter alguns singelos pontos brilhantes, numa época em que não era comum instrumentos portáteis, pois o uso de objetos com pilhas ainda era uma raridade para o poder aquisitivo da maioria. Para clarear aqui ou ali, era preciso servir-se com cuidado de uma lamparina com querosene. Tarefa essa destinada a um adulto, é claro! 

_____Desse modo, numa atmosfera de luzes tímidas e escassas, ali diante de nossos olhos, podíamos ver o bailado encantador de alguns vagalumes. Depois de crescido vim saber que também são conhecidos como pirilampos. Mas porque agora fui me lembrar de vagalumes? 

_____Curiosamente (mas foi muita coincidência, mesmo!), numa dessas noites da semana passada, vi no chão da minha cozinha um inseto, com todas as características de um vagalume. Cheguei a ficar em dúvida, mas o menino que mora dentro de mim afirma categoricamente tratar-se de um vagalume. 

_____Minha filha nunca viu um deles e, por essa razão, pensei em chamar ela e minha esposa, mas desisti. Como em nenhum momento o inseto esboçou qualquer sinal de luz, parecendo não estar portando sua “lanterna natural”, tudo que fiz foi recolhê-lo com cuidado numa pequena recipiente e colocá-lo próximo a algumas plantas, no pequeno jardim do lado de fora. 

_____Logo depois de entrar e fechar a porta, o olhar percorreu o ambiente onde moro e um “filme” passou rapidamente pela minha mente. De uma residência de três cômodos, para uma casa com mais conforto. No interior dessas paredes, objetos que simbolizam alguns sacrifícios e alegrias de se chegar até aqui. 

_____A diferença também podia ser percebida no lado de fora. Foquei o olhar na direção do lugar escuro em que tinha deixado o vagalume e tentei buscar pelo menos um mínimo de luz, mas não vi nenhum vestígio. 

_____Tornei a recordar da casinha onde nasci. Apesar de não morar mais nela, constatei que ela continua a morar dentro de mim. Lembrei também das luzes dos vagalumes e de toda a magia que elas continham. 

_____Mas somente agora me dei conta da intensidade delas. E de tão intensas, atualmente chegaram a provocar certo incômodo nos meus olhos, a ponto de verterem algumas gotas de saudade para aplacar o ardor de lampejos intermitentes, de um tempo que repousa num canto qualquer da memória. 

Texto selecionado para compor a "Coletânea Lugar no Coração", Projeto Apparere, da "Editora PerSe - Publique-se", da cidade de São Paulo-SP, editada no ano de 2025. 



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AUTORPaulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto foi publicado no blog da "Revista Vicejar" em 30.08.2025, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador do blog e do site. Para ler mais acesse:
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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

MEU CONTO:

Um canto de liberdade 


  

_____Os primeiros raios de sol começaram a iluminar o ninho que construí sobre a velha figueira, onde eu dormia, e me fez despertar. Assim que me pus em pé, agitei as asas e toda a plumagem amarelada para me espreguiçar melhor. Tudo indicava que era mais um dia normal ali naquele bosque. Parecia que seria novamente uma sucessão de horas e mais horas voando feliz pelo reino da Terra. 

_____Voei, então, até o regato que contornava algumas árvores e caminhava pela mata, desviando-se das pedras que permaneciam estáticas em seu leito. Beberiquei daquela água cristalina para saciar a minha sede matinal. Em seguida, saí para voar através daquele verde que a natureza plantou à minha volta e, enquanto batia as asas, eu engrossava o coral de cantoria que a passarada entoava toda a vez que o dia amanhecia.

_____Era maravilhoso ter todo o tempo do mundo para brincar com o vento e depois saltitar de galho em galho, de árvore em árvore, fazer voos rasantes ao solo, ou subir alto em direção ao azul do céu salpicado de nuvens esbranquiçadas. A alegria irradiava de um horizonte ao outro e era possível sentir a tranquilidade que se espalhava por todo aquele “bosque encantado”.

_____Apesar de viver feliz naquele lugar, eu tinha muita curiosidade em saber o que acontecia além dos limites da mata. Mas sempre fui desencorajado pelas andorinhas a ir muito longe. Elas contavam que, além do bosque, existia uma cidade grande onde vivia o ser humano, um animal estranho, incapaz de entender e respeitar os outros animais.

_____Contavam, inclusive, que os homens chegavam a aprisionar e a matar algumas espécies só por prazer. As andorinhas disseram, também, que os humanos eram capazes até de matar uns aos outros. Era difícil de acreditar nessas histórias, pois já cheguei a ver poucas vezes alguns adultos em companhia de crianças, andando pelas trilhas da mata, e eles não me pareciam agressivos.

_____De repente, um alvoroço tomou conta do bosque. Era um sinal de alerta para todos se cuidarem, pois o “bicho homem” se aproximava. Voei rapidamente até o ninho e permaneci lá imóvel e em silêncio. Eu pude ouvir as suas vozes quando passaram próximo de onde eu estava e seguiram em frente. Arrisquei espiar e vi que pararam perto dali por alguns instantes e logo mais foram embora. Assim que o perigo passou, todos os animais deixaram o seu abrigo e a vida voltou ao normal por toda a mata.

_____Só por curiosidade, sobrevoei o lugar onde eles permaneceram por algum tempo e vi alguns objetos estranhos que deixaram por ali. Como eram esquecidas essas pessoas! Foram embora e não se lembraram de levar tudo aquilo que trouxeram. Eu sei que os outros pássaros tinham me alertado para não me aproximar dos humanos, mas eu queria saber algo mais sobre eles. Já que eu não podia ir até a cidade, não deixaria de perder a oportunidade de ver de perto alguma coisa feita por eles. Além do mais, tudo que estava ali parecia inofensivo. Então, eu cheguei mais perto e observei os detalhes dos materiais estranhos que eles produziam.

_____Era ao mesmo tempo curioso e fascinante ver o que a mão humana é capaz de fazer. Objetos de madeira e arame colocados de forma inusitada, dando aos materiais um aspecto interessante. Notei, também, que os homens tinham deixado para trás um pouco de comida perto dos objetos. Como era hora do almoço, não poderia deixar passar todo aquele banquete que estava à minha frente, com quitutes que eu jamais havia visto e dificilmente teria igual oportunidade novamente. Fui dando uma bicada aqui, outra ali e tudo estava uma delícia. Então saltei na direção de uma caixa de pedaços de madeira com fios de arame, com bastante alimento dentro dela.

_____Porém, para a minha surpresa, assim que me ajeitei no poleiro, uma tampa de arame se fechou sobre mim e eu me vi prisioneiro. Comecei a piar, aos gritos, mas os poucos que se aproximavam não conseguiram me tirar de lá. Naquele momento compreendi como era assustador ver o que a mão humana é realmente capaz de fazer.

_____Permaneci preso por algumas horas até que os humanos voltaram. Ficaram felizes ao me verem no alçapão onde eu estava e me levaram dali em direção ao povoado. Aí, finalmente eu conheci a tal cidade. Um emaranhado de pedras sobrepostas, repleta de seres humanos apressados e preocupados em não perder tempo. No ar esfumaçado, um cheiro desagradável que em nada lembrava o perfume que as flores que existiam na mata exalavam. O homem é um animal muito estranho, pois onde ele mora quase não existem árvores por perto e é um absurdo ver que o pouco de verde que ainda resta no lugar ele mesmo se encarrega de ir destruindo.

_____Hoje eu estou preso já há algum tempo numa gaiola. Desde que fui trazido para cá, sinto muito medo quando uma pessoa chega perto de mim. Aos poucos eu passei a entender o que os humanos falam, muito embora eles não me entendem nem um pouco. Toda vez que alguém diferente me vê, sempre pergunta se eu sou um canário do reino ou da terra. Que diferença isso faz, já que o meu reino é toda a Terra?... Ou pelo menos era!...

_____Quando eu expresso algum som, alguém se aproxima de mim e sorri dizendo que eu estou cantando alegremente. Como pode um ser que se diz inteligente achar que alguém que está preso é capaz de cantar feliz? Como pode alguém, que luta tanto por sua própria liberdade, fazer tudo para tirar a liberdade de outro ser vivo, só porque tem uma plumagem de coloração atraente e emite um som interessante? Seria o mesmo que um ser humano prendesse outro de sua espécie, simplesmente por ele se vestir bem e ter uma linda voz. Isso é um absurdo, assim como não tem nenhum cabimento eu estar preso!

_____Os homens não percebem que o som que eu emito não é um canto. Algumas vezes é um lamento e, outras, um gemido de dor. Porém, na maioria das vezes, o meu “cantar” é um grito, um clamor por liberdade. Nesses sons que expresso eu tento manifestar que muitas vezes eu sinto fome e frio. Mas o que mais me machuca é a solidão e, principalmente, a tristeza por ter sido feito prisioneiro apenas porque a natureza me fez encantador e indefeso.

_____Todos os dias eu olho em direção ao “bosque encantado” e às vezes choro por saber que nunca mais vou voltar a ver aquele lugar. E sempre que eu vejo o topo da copa das árvores que lá existem, que estão cada vez mais distantes de mim, eu me pergunto:


_____
— Que mal eu fiz ao ser humano para ele me condenar à prisão perpétua?!



- Menção Especial no "III Concurso Grandes Nomes da Literatura Brasileira", da cidade de São Paulo-SP, e publicado por Phoenix Editora.

- Selecionado do Concurso "Banco de Talentos 2003" da Febraban e publicado por esta Entidade em livro de Coletânea do evento.


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AUTORPaulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto foi publicado no blog da "Revista Vicejar" em 04.11.2024, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador do blog e do site. Para ler mais acesse:
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