Paulo Cesar Paschoalini

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Pirafraseando

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terça-feira, 15 de novembro de 2022

MINHA CRÔNICA:


MÚSICA: 'Construção' 
(Composição: Chico Buarque de Holanda, 1971) 

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

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'Construção'... e reconstrução poética 

Esta música de Chico Buarque, do ano de 1971, é considerada por muitos críticos como uma de suas mais significativas composições, elaborada cuidadosamente com frases terminadas com palavras proparoxítonas. Descreve não somente a rotina de uma edificação comum às grandes cidades, mas como a sociedade está construída e as diferenças nela existentes.

A princípio, retrata a realidade da construção civil, observada de acordo com o ponto de vista humano, daqueles que se arriscam equilibrando em andaimes para poder executar a tarefa de por “tijolo por tijolo num desenho mágico”.

Além do mais, “comeu feijão com arroz... bebeu e soluçou”, por exemplo, dão a dimensão das condições e sentimentos que envolvem o operário, tratado “como se fosse máquina”. Enquanto procuram ganhar a vida executando essa tarefa tão necessária à sociedade, mas também tão arriscada, muitos acabam por morrer “na contramão atrapalhando o tráfego”.

Após finalizar a primeira parte com a morte do operário, a segunda parte é cantada com os versos começando de maneira semelhante, ainda terminado com proparoxítonas, mas no desfecho com palavras diferentes que foram mencionadas ao longo da letra. No entanto, quando cantada, ainda, pela terceira vez, cada verso apresenta no final uma forma desordenada, numa genial reconstrução poética, ganhando contornos de desconstrução, mostrando uma realidade caótica.

Dessa forma, a letra também adquire ares de demolição da vida humana, revelando dramaticamente como o indivíduo é usado e abusado, sendo despido de sua dignidade. Destaque para: “amou... como se fosse máquina”, “ergueu... paredes flácidas” e “e se acabou no chão feito um pacote bêbado”.

Para finalizar a composição, um arremate que expõe o lado desumano e realista. Apesar da vida desgraçada a que se submete, ainda se vê obrigado a agradecer a quem detém o poder econômico, pela oportunidade de lhe dar uma maneira de ganhar a vida, embora as condições de trabalho sejam mais apropriadas para que venha a perdê-la.

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir...
Por me deixar respirar, por me deixar existir...
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair...
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir...
Deus lhe pague!

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TEXTO: Paulo Cesar Paschoalini
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 < CURRÍCULO LITERÁRIO E PREMIAÇÕES > 
COMENTÁRIO: O texto/música foi publicado no blog da "Revista Vicejar" em 13.11.2022, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador. Para ler mais acesse:
BLOG DA REVISTA VICEJAR: http://revistavicejar.blogspot.com/
LINK DO TEXTO:
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segunda-feira, 1 de junho de 2020

MINHA CRÔNICA:

A construção de si mesmo: 
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No ano seguinte após o fim da II Guerra Mundial, o filósofo francês Jean Paul Sartre publicou seu livro “O Existencialismo é um humanismo”. Embora o cenário fosse pessimista por ter conhecido os horrores do conflito, Sartre dizia que o Existencialismo não era uma filosofia passiva, mas algo capaz de tornar possível a vida humana.

O Existencialismo proposto por esse filósofo francês prega que nós não nascemos prontos e, por essa razão, temos a possibilidade de nos construir durante a vida. Sendo assim, é preciso estar consciente de que nossa ação individual acabará por refletir para toda a humanidade.

Mas o que seria, então, essa nova visão existencialista? O que ela trazia de novo para o ser humano, que faz com que seja objeto de estudos filosóficos para nossa vida?

Angústia e liberdade:
Para o Existencialismo, o homem simplesmente existe e sua essência será aquilo que ele projetar, onde ele estiver inserido. Dessa forma, Sartre diz que o homem tem de construir a si mesmo, pois, caso contrário, ele não será nada enquanto não fizer algo; “o homem é, antes de qualquer coisa, um projeto que vive subjetivamente”, não existindo, desse modo, nada que anteceda esse projeto.

A construção do ser humano é resultado de processos históricos e esse “ser no mundo” não é somente responsável pela sua individualidade, mas por toda a humanidade, pois influenciamos e somos influenciados por tudo. E isso gera nele a angústia, a responsabilidade de decidir seu futuro.

Segundo Sartre, não existe determinismo, pois o homem “está condenado a ser livre”, sendo o único responsável por suas escolhas; agente e fruto da própria liberdade. Ele não nasceu pronto e sua liberdade de escolha possibilita que se torne aquilo que ainda não é. Então, ele seria o que pode-se chamar de “não ser”, algo indefinido e indeterminado, que só será construído por suas ações.

O ser “em-si”, “para-si” e “para-o-outro”:
Quando o ser humano passa a ter consciência de si mesmo e do outro, começa a perceber-se como existência consciente. A relação do homem no mundo se faz com outro ser, distinto de si; o ser das coisas. Esse ser é pleno e idêntico a ele mesmo, que Sartre denomina “em-si”, que não possui história, devir ou potencialidade. “O ser ‘em-si’ apenas é em sua plenitude”.

Além do ser “em-si”, Sartre fala sobre a existência do ser “para-si”, essencialmente humano, que, diferentemente do “em-si”, não é pleno e busca constantemente completar-se. Por ser incompleto, inacabado, é que esse “para-si” vai se construindo através do exercício da liberdade, sendo impossível, portanto, não escolher ser livre.

Sartre concebe também o que ele chama de ser “para-o-outro”. Nesse caso, ele diz que “é necessário reconhecer primeiro o outro como outro para depois o sujeito se reconhecer”. O homem percebe-se e se constrói através da relação com o ser “para-o-outro”, de estrutura conflituosa. Ele menciona, ainda, que o outro representa o limite do seu ser.

Contribuição do Existencialismo
Embora o Existencialismo tenha surgido num período pós-guerra, os conflitos dos dias atuais não são propriamente entre grandes potências, mas eles não deixam de existir de maneira localizada. Estamos assistindo a momentos de elevadas tensões, pelos mais variados motivos.

A relação com o outro é marcada por conflitos que soam como absurdos ao próprio ser humano, mas ele mesmo não se dá conta de que tudo é fruto da sua liberdade de escolha. Apesar de ser responsável pela construção de si, suas atitudes estão muito mais pautadas em atos que contribuem para a destruição da relação com o outro.

Talvez seja esse o ponto crucial que Sartre nos convida a refletir. Realmente é de fato angustiante ter a consciência de ser único responsável pelo seu futuro e ter a percepção de que aquilo que escolhe pode ter influência em toda a humanidade. 

REFERÊNCIA:
“A construção consciente do homem”, artigo de Isaias Sczuk, publicado pela revista “Filosofia Ciência e Vida” nº 74, setembro/2012.

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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 < CURRÍCULO LITERÁRIO E PREMIAÇÕES > 

COMENTÁRIO: O texto foi publicado no blog da "Revista Vicejar" em 01.06.2020, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador do blog e do site. Para ler mais acesse:
BLOG DA REVISTA VICEJAR: http://revistavicejar.blogspot.com/
LINK DO TEXTO: https://revistavicejar.blogspot.com/2020/06/a-construcao-de-si-mesmo.html .
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