Paulo Cesar Paschoalini

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Pirafraseando

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

MINHA CRÔNICA:

Doce narcose de um mundo melhor 



_____Mais uma vez os freios do tempo mostraram ser pouco eficientes, pois estamos novamente às voltas com outro final de ano. Fim de um ciclo... começo de compras! Atualmente, fazer compras passou a ser sinônimo de ir a um shopping center, quer seja na própria cidade ou na região. 

_____Nesse espaço o frequentador busca e acaba encontrando um local que considera seguro, limpo, com um visual agradável, onde é impelido a consumir produtos e serviços de maneira quase que inconsciente. Mas afinal, seria esse lugar algo positivo, ou negativo? Estaria ele sendo usado para acesso de qualquer cidadão ou com objetivo segregacionista? 


“Coisas divinizadas”

_____Em artigo publicado na revista “Filosofia Ciência & Vida”, o Dr. Renato Nunes Bittencourt apresenta uma visão sobre a configuração física de um shopping, fazendo analogia ao útero materno, já que a climatização do espaço permitiria comparar a sensação de acolhimento e bem estar vivida no ventre da mãe.

_____No texto menciona o cientista social Erving Goffman, para quem a intenção das lojas não é de consideração à pessoa, mas de atrativo para consumo: “queremos o seu dinheiro, mas não sua permanência nesse recinto”. Esse formato é chamado de “não lugar” pelo antropólogo francês Marc Augé, que envolve as instalações para a rápida circulação das pessoas e os meios de transporte dos grandes centros.

_____O que parece ser uma liberdade de escolha para o consumidor na verdade é uma indução à aquisição quase automática, já que as vitrines funcionam como um espaço sagrado para adoração de “coisas divinizadas”, passando por estudos minuciosos de design e cores, além de propaganda planejada para atrair o consumidor-cidadão. 


“Doce narcose da existência de um mundo melhor”

_____O sistema de vigilância dos shoppings segue o modelo idealizado por Jeremy Bentham, que representa o olhar onisciente de Deus, capaz de ver tudo. Vivemos um momento social em que se evidencia a arquitetura do medo e esses locais se assemelhariam a condomínios fechados, onde “as muralhas” podem dar uma sensação de “segurança máxima” contra o mundo do “lado de fora”.

_____Segundo o pensador polonês Zygmunt Bauman, “a insegurança alimenta o medo” e seria natural essa preocupação contra as ameaças existentes. Cria-se, então, o que ele chama de “doce narcose da existência de um mundo melhor”, graças ao monitoramento permanente, visando blindar a pessoa de eventuais situações desfavoráveis.

_____Numa versão socioeconômica de “apartheid”, os abastados podem usufruir desse espaço de lazer, com toda segurança. No entanto, aqueles considerados não economicamente viáveis devem apenas consumir os produtos, retornando para as suas residências tão logo finalizem as compras.

_____No final, é citado que a “meta comercial do capitalismo tecnocrático consistirá na criação de shopping-condomínio ou shopping-hotel”. Com isso, o ar respirável será aquele advindo dos shoppings e as cores em nosso entorno serão as que compõem esses ambientes e não as presentes em parques e jardins públicos. 


“Feliz Compra”… Feliz?

_____As emblemáticas mensagens de “Feliz Natal” e “Feliz Ano Novo” foram, de maneira subliminar, substituídas pelo desejo de “Feliz Compra!”... Feliz?

_____Difícil de imaginar ser feliz quando se tem de cumprir imposições sociais, adquirindo produtos da moda e que atendam às necessidades do momento. Trata-se de uma ocasião em que todos (ou quase) estão impregnados da patológica ditadura do “ter”.

_____Uma “felicidade” fabricada e, como tudo o que é fabricado tem seu prazo de validade, ela se expira poucos dias após a virada do Ano Novo, quando nos damos conta da rotina e constatamos que o “novo” não chegou. Durante os demais meses do ano, virão outras datas e novos desejos de felicidades. Muitas vezes aquilo que se deseja é justamente o que mais pode estar faltando. 


REFERÊNCIA: BITTENCOURT, R. N., O Apartheid Mitigado nos shopping centers. Filosofia Ciência & Vida, São Paulo, ano VII, n. 93, p. 55-62, abr. 2014. 


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AUTORPaulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto foi publicado no blog da "Revista Vicejar" em 11.12.2023, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador do blog e do site. Para ler mais acesse:
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domingo, 1 de janeiro de 2023

MINHA POESIA:

PRINCÍPIO: 

O primeiro de janeiro 

trouxe chuva, água viva, 

para lavar decepções 

e regar expectativas. 

 

O pó de onde passamos, 

de calçados em desamarro,

espalhou-se pelo caminho 

e agora tornou-se barro. 

 

E, assim, como tal e qual, 

será moldado na calma, 

conforme vindouros sonhos

que brotarão da nossa alma... 

 

Aguardando o sopro sagrado 

de um novo tempo-criança. 

Há de ser um ‘faça-se a luz’, 

para iluminar esperanças! 

 
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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
(Protegido por Lei de Direitos Autorais 9.610/98)
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[ OBS.: Texto registrado na FBN / EDA, em 2017 ] 
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

MEU TEXTO:

AGRADECIMENTO: 

Num mundo pautado pela intolerância, escrever tornou-se uma tarefa arriscada. Ao expressar sentimentos e opiniões, quem escreve coloca-se como vidraça, arriscando-se a ser mal compreendido, ao sabor de eventuais pedras atiradas.

No meu caso, em particular, além de ser uma necessidade, quando escrevo e publico, eu tenho a satisfação de receber comentários repletos de gentileza e incentivo.

Dessa maneira, o que recebi ao longo de mais este ano foram flores lançadas em forma de palavras nos comentários, que ornamentaram as janelas da alma e todo o interior.

Quero agradecer MUITO a todos pela tenção recebida. Que o ano de 2021 seja abençoado, repleto de paz, amor e muita saúde, para todos os amigos e seus entes queridos.

QUE SEJA UM FELIZ ANO NOVO!!!


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AUTORPaulo Cesar Paschoalini
(Protegido por Lei de Direitos Autorais, 9.610/98)
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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

MINHA CRÔNICA:

Bom dia, Ano Novo! 


Aprendemos desde criança a cumprimentar as pessoas com quem nos relacionamos, primeiramente com um informal ‘oi’, depois, mais crescidos, com os habituais ‘bom dia’, ‘boa tarde’ e ‘boa noite’.

Conversando com gente mais vivida, tomei conhecimento de que, antigamente, pronunciar esses cumprimentos era algo que vinha realmente do coração. Mais do que um simples gesto de gentileza, era o desejo de que a outra pessoa tivesse realmente um ‘bom dia’, por exemplo.

Com o tempo, o que era desejo passou a ser mera cortesia e esta, por sua vez, passou a ser uma formalidade qualquer, de tal maneira que muitas vezes nem nos damos conta de quem estamos cumprimentando, pois nem sequer olhamos nos olhos um do outro. Assim, o então ‘bom dia’ acabou reduzindo-se num ‘... dia’, a fim de tão somente se cumprir uma imposição social.

Há cerca de quinze dias, eu estive no ‘IMP - Instituto de Mama de Piracicaba’, acompanhando uma pessoa muito próxima, que se recuperou de procedimentos cirúrgicos e tinha uma consulta marcada. Quando lá cheguei, cumprimentei as duas secretárias, que já nos conhecia, mas não foi possível estender a cortesia a todos, uma vez que a sala de espera estava tomada de outros pacientes e respectivos acompanhantes.

Uma dessas atendentes pediu que aguardássemos um pouco, pois aquele era um dos últimos dias do ano de atendimento médico e, além das rotineiras consultas, muitos dos pacientes que lá estavam iriam passar por tratamento quimioterápico.

Ao lançar um olhar pela ambiente, era possível ver mulheres de várias idades, muitas com penteados pouco convencionais. Algumas com cabelos bem curtos, outras com a cabeça raspada e outras, ainda, usando algum tipo de aplique, fato esse que só tomamos conhecimento depois que algumas delas se manifestaram sobre isso.

Lembrei-me, então, de uma frase que li, não me recordo onde; ‘a vaidade de uma mulher brota da raiz de seus cabelos’. Levando-se em conta essa máxima, podia-se notar que todas elas (todas mesmo!) haviam abdicado de sua vaidade e fizeram vir à tona uma força visivelmente maior do que os problemas que enfrentam.

Porém, o que mais me chamou a atenção foi um outro detalhe muito importante. No final de cada atendimento, ou saindo do consultório de algum médico, ou deixando a sala de quimioterapia, elas passavam pelas secretárias e as cumprimentavam com um forte abraço.

Antes de ir embora, porém, todas elas, sem exceção, olhavam para as pessoas que estavam na sala de espera (lotada, repito) e, em razão da época do ano, acenavam para os presentes, desejando-lhes um ‘Feliz Natal’ e um ‘Feliz Ano Novo’, com um brilho especial nos olhos e uma sinceridade muito diferente do nosso ‘bom dia’ convencional. Aquilo foi uma experiência por demais emocionante!

Diante de tudo isso, podemos constatar que aquele pequeno grupo representa uma singela amostra do comportamento humano. Somente quando está diante de situações extremas é que se lembra de que é um ser social, envolto numa atmosfera que deveria ser de solidariedade.

Quando se veem às voltas com algo que faz referência à sua finitude, as pessoas são capazes de olhar para seus semelhantes com a humanidade que era para existir no convívio diário. Chega a ser curioso notar que são muito mais os aspectos voltados à morte que nos faz refletir sobre a vida. Entretanto, quando devidamente saudáveis, muitas das atitudes passam a ser de certo incômodo pela existência ‘do outro’.

Na rotina atual, fomos de certa forma adestrados que ‘viver é competir’, ser melhor em algum aspecto e ser mais bem sucedido que ‘o outro’, considerado um adversário (ou, em alguns casos, um inimigo) a ser batido. De acordo com o ponto de vista dos segmentos estritamente comerciais, viver nos dias de hoje é estimular a prevalência sobre o outro, tido por muitos mentores do moderno mundo competitivo como um concorrente, ou um ‘grande obstáculo’ a ser superado.

Minha particular lição de final/começo de ano é que tenhamos, acima de tudo, um olhar capaz de espargir energia saudável, quando lançado na direção do nosso próximo, e que eventuais diferenças sejam vistas apenas como normais características divergentes de ‘um outro eu’.

Que os cumprimentos de ‘Feliz Ano Novo’ se tornem diferentes dos já desgastados ‘bom dia’. Que eles sejam um desejo intenso e sincero, não um balbuciar automático de palavras vazias, conforme fomos devidamente condicionados ao longo de nossa vida. Sendo assim...

... Bom dia, Ano Novo!... Que seja repleto de dias bons!!!

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini 
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COMENTÁRIO: O texto foi publicado no blog da "Revista Vicejar" e no site "(Entre)laços do Coração", em 01.01.2020 e também no site, onde o escritor possui vários textos de sua autoria, atuando como Colaborador do blog e do site. Para ler mais acesse:
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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

MINHA CRÔNICA:

Bom dia, Ano Novo!


Aprendemos desde criança a cumprimentar as pessoas com quem nos relacionamos, primeiramente com um informal “oi”, depois, mais crescidos, com os habituais “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”.

Conversando com gente mais vivida, tomei conhecimento de que, antigamente, pronunciar esses cumprimentos era algo que vinha mesmo do coração. Mais do que um simples gesto de gentileza, era o desejo de que a outra pessoa tivesse realmente um “bom dia”, por exemplo.

Com o tempo, o que era desejo passou a ser mera cortesia e esta, por sua vez, passou a ser uma formalidade qualquer, de tal maneira que muitas vezes nem nos damos conta de quem estamos cumprimentando, pois nem sequer olhamos nos olhos um do outro. Assim, o então “bom dia” acabou reduzindo-se num “... dia”, a fim de tão somente se cumprir uma imposição social.

Há cerca de quinze dias, eu estive no Instituto de Mama de Piracicaba, acompanhando uma pessoa muito próxima, que se recuperou de procedimentos cirúrgicos e tinha uma consulta marcada. Quando lá cheguei, cumprimentei as duas secretárias, que já nos conhecia, mas não foi possível estender a cortesia a todos, uma vez que a sala de espera estava tomada de outros pacientes e respectivos acompanhantes.

Uma das secretárias pediu que aguardássemos um pouco, pois aquele era um dos últimos dias do ano de atendimento médico e, além das rotineiras consultas, muitos dos pacientes que lá estavam iriam passar por tratamento quimioterápico.

Ao lançar um olhar pela ambiente, era possível ver mulheres de várias idades, muitas com penteados pouco convencionais. Algumas com cabelos bem curtos, outras com a cabeça raspada e outras, ainda, usando algum tipo de aplique, fato esse que só tomamos conhecimento depois que algumas delas se manifestaram sobre isso.

Lembrei-me, então, de uma frase que li, não me lembro onde; “a vaidade de uma mulher brota da raiz de seus cabelos”. Levando-se em conta essa máxima, podia-se notar que todas elas (todas mesmo!) haviam abdicado de sua vaidade e fizeram vir à tona uma força visivelmente maior do que os problemas que enfrentam.

Porém, o que mais me chamou a atenção foi um outro detalhe muito importante. No final de cada atendimento, ou saindo do consultório de algum médico, ou deixando a sala destinada à quimioterapia, elas passavam pelas secretárias e as cumprimentavam com um forte abraço.

Antes de ir embora, porém, todas elas, sem exceção, olhavam para as pessoas que estavam na sala de espera (lotada, repito) e, em razão da época do ano, acenavam para os presentes, desejando-lhes um “Feliz Natal” e um “Feliz Ano Novo”, com um brilho especial nos olhos e uma sinceridade muito diferente do nosso “bom dia” convencional. Aquilo foi uma experiência por demais emocionante.

Diante de tudo isso, podemos constatar que aquele pequeno grupo (e não apenas essas pessoas) representa uma singela amostra do comportamento humano. Somente quando está diante de situações extremas é que se lembra de que é um ser social, envolto numa atmosfera de solidariedade.

Quando se vê às voltas com algo que pode fazer referência à sua finitude, as pessoas são capazes de olhar para seus semelhantes com a humanidade que deveria ser comum no convívio diário. Chega a ser curioso notar que são muito mais os aspectos voltados à morte que nos faz refletir sobre a vida. Entretanto, quando devidamente saudáveis, as atitudes passam a ser de certo incômodo pela existência “do outro”.

Na rotina atual, fomos de certa forma adestrados “que viver é competir”, ser melhor em algum aspecto e ser mais bem sucedido que “o outro”, considerado um adversário (ou, em alguns casos, um inimigo) a ser batido. De acordo com o ponto de vista dos segmentos estritamente comerciais, viver nos dias de hoje é, de certa forma, estimular a prevalência sobre o outro, tido por muitos mentores do moderno mundo competitivo como um concorrente, ou um “grande obstáculo” a ser superado.

Minha particular lição de final/começo de ano é que tenhamos, acima de tudo, um olhar capaz de espargir energia saudável, quando lançado na direção do nosso próximo, e que eventuais diferenças sejam vistas apenas como normais características divergentes de “um outro eu”.

Que os cumprimentos de Feliz Ano Novo se tornem diferentes dos já desgastados bom dia. Que eles sejam um desejo intenso e sincero, não um balbuciar automático de palavras vazias, conforme fomos devidamente condicionados ao longo de nossa vida.

Bom dia, Ano Novo!!!


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TEXTO: Paulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto foi publicado na "Revista Vicejar", em 01.01.2019, onde o autor é colaborador, sendo que seus textos são publicados regularmente. Para ler mais acesse:
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domingo, 31 de dezembro de 2017

MINHA CITAÇÃO:

Ano Novo

"Obrigado a todos vocês que em 2017 cruzaram (a tela do) meu caminho.

2018: UM ANO PAR
Que nos próximos 365 dias você possa ter como parceiras paz, saúde e muitas felicidades."

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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Que tudo de bom possa ser seu par em 2018,
onde você for e com quem você estiver!

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

MEU TEXTO:

Reflexão de final de ano

Aprendemos desde criança a cumprimentar as pessoas com quem nos relacionamos, primeiramente com um informal “oi”, depois, mais crescidos, com os habituais “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”.

Conversando com aquelas mais vividas, tomei conhecimento que, antigamente (bem antigamente, mesmo), pronunciar esses cumprimentos era algo que vinha mais do coração. Mais do que um simples gesto de gentileza, era o desejo de que a outra pessoa tivesse realmente um bom dia, por exemplo.

Com o passar do tempo, o desejo passou a ser uma cortesia e esta, por sua vez, passou a ser somente uma formalidade qualquer, de tal maneira que muitas vezes nem nos damos conta de quem estamos cumprimentando, pois nem sequer olhamos nos olhos um do outro. Assim, o então “bom dia” acabou se reduzindo num “... dia”, a fim de tão somente se cumprir uma imposição social.

No último dia 22, eu estive no Instituto de Mama de Piracicaba, acompanhando uma pessoa muito próxima, que está se recuperando de procedimentos cirúrgicos e tinha uma consulta marcada para aquela data. Quando lá cheguei, cumprimentei as duas secretárias, que já nos conhecia (aliás, sempre muito atenciosas com todos), mas não foi possível cumprimentar a todos, uma vez que a sala de espera estava tomada de outros pacientes, com respectivos acompanhantes.    

Uma das secretárias pediu que fizéssemos a gentileza de aguardar, pois aquele era o último dia do ano de atendimento médico e, além das habituais consultas, muitos dos pacientes que lá estavam iriam passar por tratamento quimioterápico.

Ao lançar um olhar pela ambiente, era possível ver mulheres de várias idades e muitas delas com cortes de cabelo pouco convencionais. Algumas com cabelos bem curtos, outras com a cabeça raspada e outras, ainda, usando algum tipo de aplique, fato esse que só tomamos conhecimento depois que algumas delas assim se manifestaram, com quem eu acompanhava.

Lembrei-me, então, de uma frase que li, não me lembro onde; “a vaidade de uma mulher brota da raiz de seus cabelos”. Levando-se em conta essa máxima, podia-se notar que todas elas (todas mesmo!) haviam abdicado de sua vaidade e fizeram vir à tona uma força visivelmente maior do que os problemas que enfrentavam.

Mas o que mais me chamou a atenção foi um outro detalhe muito importante. Cada vez que terminavam de ser atendidas, ou por algum médico nos consultórios, ou saindo da sala destinada à quimioterapia, elas passavam pelas secretárias e as cumprimentavam com um forte abraço.

Antes de ir embora, porém, todas elas, sem exceção, olhavam para as pessoas que estavam na sala de espera (lotada, repito) e, em razão da época do ano, acenavam para os presentes, desejando a todos um “Feliz Natal” e um “Feliz Ano Novo”, com um brilho especial nos olhos e uma sinceridade muito diferente do nosso “bom dia” convencional. Para um observador mais atento, aquilo foi uma experiência por demais emocionante.

Diante de tudo isso, podemos constatar que aquele pequeno grupo (e não apenas essas pessoas) representa uma singela amostra do comportamento humano. Somente quando está diante de situações extremas é que o ser humano se lembra de ser solidário. Quando se vê às voltas com algo que pode fazer referência à morte, as pessoas são capazes de olhar para seus semelhantes com a humanidade que deveria ser comum no convívio diário. Chega a ser irônico notar que são muito mais os aspectos voltados à morte que nos faz refletir sobre a vida. Entretanto, quando devidamente saudáveis, nosso alvo passa a ser um certo incômodo pela existência “do outro”.

Na nossa rotina, fomos de certa forma adestrados "que viver é competir", ser melhor em algum aspecto e ser mais bem sucedido que “o outro”, considerado um adversário (ou, em alguns casos, um inimigo) a ser batido. De acordo com o ponto de vista dos segmentos estritamente comerciais, viver nos dias de hoje é, de certa forma, estimular a prevalência sobre o outro, tido por muitos mentores do mundo competitivo atual como um concorrente, ou um “grande obstáculo” a ser superado.

Minha particular lição de final/começo de ano é que tenhamos, acima de tudo, um olhar capaz de espargir saúde, quando lançado na direção do outro, e que eventuais diferenças sejam vistas apenas como normais características divergentes de “um outro eu”.

Que os cumprimentos de "Feliz Ano Novo" sejam diferentes dos já desgastados "bom dia". Que sejam um desejo intenso e sincero e não um balbuciar automático de palavras vazias, conforme fomos devidamente condicionados ao longo de nossa vida. 

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto acima pode parecer ingênuo, recorrente ou utópico. Mas ele reflete a maneira de como costumo ver o mundo, dentro de minha limitação,com meus acertos e equívocos, comum à qualquer pessoa. E os finais de ano, em especial, me remetem obrigatoriamente à John Lennon: "você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único". Sou, portanto, um sonhador assumido e dentro dessa visão utópica, me socorro do escritor irlandês Oscar Wilde, para quem "o progresso não é senão a realização das utopias". Para finalizar, o que me refiro, em particular, é sobre o progresso humano. Utópico?... Será mesmo?
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