Tudo o que sei...
Quanto menor a autoestima, maior é a necessidade de dar a última palavra
em tudo
Há cerca de
2.500 anos, o filósofo grego Sócrates foi um dos expoentes da época clássica e,
entre outros pensamentos de enorme relevância até hoje, tornou-se célebre com a
famosa frase: “tudo o que sei é que nada sei”. De fato, Sócrates tinha tudo
para realmente nada saber. Afinal, naquela época não existiam jornais e
revistas, de onde se tomam as notícias como “verdades absolutas e
inquestionáveis”.
Outro ponto
importante a se considerar é que na Grécia socrática não existia a internet.
Porém, o fato que merece destaque é que não havia o maior veículo de
informação, ou, muitas vezes, “deformação”: o Facebook. Desse modo, sem poder
contar com jornais, revistas, internet e, principalmente, o “Face”, tudo o que
o “pobre” do Sócrates só podia mesmo dizer é que “nada sei”.
Outros
gregos, como, por exemplo, Platão, Aristóteles e Xenofontes, também se
arriscaram a dizer “algumas coisinhas”, mas esses pensadores também não tinham
acesso a tudo aquilo disponível nos dias atuais e que muitos julgam
indispensável.
Hoje, quando
é feita uma postagem, as pessoas sentem uma necessidade patológica não só de
comentar, mas, sobretudo, contestar para mostrar que “elas existem”. Assim, uma
outra máxima da Filosofia, dita por Descartes séculos mais tarde, também caiu
por terra. Pensar já não é o bastante; a tônica de agora é se expressar. O que
passou a valer é o “digito, logo existo”.
Convém observar que os filósofos da era clássica eram “meros pensadores”
e, atualmente, as pessoas “evoluíram” para “postadores”. Mais do que nunca,
estamos vivendo conforme a “Alegoria da caverna”, de Platão. E, envoltos no interior de sombras e
escuridão, existem aqueles que insistem em impor ao mundo todos os seus
“achismos”, com autoridade de “especialistas” que se consideram, sendo
intolerantes com opiniões divergentes.
Tomam-se as
“imagens projetadas” como pura expressão da verdade e as espalham o mais
depressa possível, para alardearem que “sabem de tudo” antes de qualquer um.
Movidos pela ditadura da velocidade e da ostentação de “bem informados”,
eximem-se de algo que os filósofos fartavam-se; Reflexão. Enquanto os pensadores buscavam a verdade, e
os de bom senso ainda continuam a procurá-la, muitos assumem a postura de já
terem encontrado convicções para inflarem o ego, de acordo com a sua
conveniência.
Numa época
de tanta intolerância e fanatismo, o tal do Facebook é um canal essencial para
quem se dedica a esse fim. Nele as pessoas também exacerbam seu narcisismo,
além de utilizá-lo, inclusive, como sendo uma espécie de terapia, onde os
indivíduos exercitam seus desejos, ou dão vazão às suas mais profundas frustrações. Quanto menor a autoestima, tanto maior a
necessidade de postagens e de dar a última palavra em tudo.
Podemos
concluir que, se os conceitos daqueles filósofos gregos ainda permanecem, mesmo
depois de mais de 2.500 anos, embora eles “nada soubessem” e sem as Redes
Sociais, imaginem só o quanto poderá durar esse “festival de genialidades”, em
profusão no Facebook!
E, no futuro, quando os historiadores se depararem com o estudo das
características deste nosso momento, em que muitos pensam que “tudo sabem”,
constatarão que a vaidade é um atalho capaz de levar à insignificância. Poderão
se deparar, por exemplo, uma famosa frase de Nelson Rodrigues: “invejo a
burrice, porque é eterna”.
Assim, na
ânsia de verem-se imortais de qualquer maneira, em razão de privilegiarem mais
a quantidade que a qualidade, de certa forma, muitos poderão sentir-se
“eternizados” devido ao conteúdo da maioria de suas postagens.
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TEXTO: Paulo
Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO:
A crônica texto
acima é um visão particular acerca das Redes Sociais, que, muito embora seja um avanço tecnológico fantástico, entendo que na maioria dos casos têm sido utilizadas de maneira pouco produtiva. O texto também pode ser encontrado no site "Portal Raízes", através do
link: http://www.portalraizes.com/tudo-o-que-sei-e-que-nada-sei, ou acessado pelo Facebook do "Portal Raízes".
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