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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

MINHA CRÔNICA:


Fábrica de heróis

A revista “Veja”, da Editora Abril, em uma das edições de agosto de 2009 trouxe em sua capa uma foto do nadador brasileiro César Cielo, com a seguinte manchete: “Enfim, um herói”. Sem dúvida uma justa homenagem a esse atleta nascido em Santa Bárbara D’Oeste, estado de São Paulo, que fica coladinha com Piracicaba, a cerca de 30 km. O que chamou a atenção, no entanto, foi o termo “herói”, que eu me perguntei se seria o mais adequado. Afinal, necessitamos realmente de heróis?

Ao longo de minha vida, tinha aqui comigo que “herói” é aquele sujeito capaz de colocar a própria vida em risco para salvar alguém ou algo de relevância para a comunidade onde vive, que é mais ou menos próximo a uma das definições do Dicionário Aurélio: “Homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade”.

É claro que tem expressivo valor o fato de ter batido o recorde mundial de natação e a conquista de duas medalhas de ouro no Mundial da modalidade realizado em Roma. Por esse feito extraordinário eu diria que ele é o mais novo ídolo do esporte brasileiro, mas seria realmente isso um ato de heroísmo?

Não sei ao certo se rotular alguém de herói é uma imposição da mídia ou uma necessidade da sociedade. Curiosamente, a mídia tem usado o “herói” sempre vinculado a uma figura do esporte.

Como exemplo, lembro-me muito vagamente que a crônica esportiva se esbaldou em chamar a seleção de 1970, de Pelé & Cia. de “Heróis do Tri”. Depois disso, recordo que o termo foi amplamente associado à figura de Ayrton Senna, tanto durante sua brilhante trajetória automobilística, como, principalmente, depois de se falecimento, em maio de 1994. Com a morte desse piloto, meses depois a mídia já tratou de cultuar a figura de Romário como novo “herói”, em razão da conquista do tetracampeonato na Copa do Mundo daquele mesmo ano.

Assim que o “Baixinho” começou a sair de cena, devido às dificuldade um driblar polêmicas fora dos gramados, eis que surge em 1997 o tenista Gustavo Kuerten, que conquistou pela primeira vez o título de Roland Garros, um torneio do chamado Grand Slan, que seria a “nata” do tênis mundial. A repetição da conquista por mais duas vezes e o carisma de Guga colocaram-no como “herói” por muito tempo, até que o “cargo” ficou vago a espera de mais um sucessor. Aí chegou César Cielo, mencionado no início dessa crônica. Convém lembrar que em cada interlúdio era a vez de dar destaque aos “heróis” de algumas das diferentes gerações do vôlei.

Entendo que o uso estaria inadequado, quase que banalizando um termo tão nobre. Entretanto, a vulgarização da palavra “herói” alcançou seu ápice quando Pedro Bial, a meu ver um ex-jornalista travestido de apresentador barato de Reallity Show, passou a se referir aos participantes dos inúmeros Big Brothers como “meus heróis”.

Salvo esse caso, não me recordo de ter visto ou ouvido o termo “herói” ser usado com ênfase em qualquer outro segmento que não o esportivo. É inevitável uma indagação: será que heróis são somente aqueles que praticam esporte? Não existiria outro caminho para atos de heroísmo? O ideal não seria classifica-los como “ídolos”, o que, certamente, já seria uma grande deferência a atletas de renome?

A meu ver, heróis são aquelas pessoas anônimas, que diuturnamente dedicam, ou mesmo arriscam a sua vida para melhorar ou até salvar a vida de outro ser humano. Eu destacaria primeiramente o pessoal da área médica, que atende pessoas com doenças infecto-contagiosas, por exemplo; os bombeiros, que arriscam a vida em ocorrências que requerem sua presença; policiais, que armados de um simples 38, enfrentam marginais munidos de bazuca. Vale destacar que a mídia dá muito mais destaque para fatos envolvendo policiais corruptos do que para aqueles que se ferem ou morrem no cumprimento do dever e que, diga-se de passagem, são muito mais do que imaginamos.

Além desses, temos ainda o cidadão comum que arregaça as mangas toda vez que uma catástrofe natural se abate sobre uma determinada região do país, assim como aconteceu recentemente em Santa Catarina. Ou, ainda, os mais diversos trabalhos voluntários praticados por abnegados Brasil afora.

Para a maioria das pessoas, as palavras “heróis” e “ídolos” se confundem. Existem algumas diferenças que para muitos pode ser mínima, mas que vejo como sendo significativas e relevantes: o ídolo é aquele sujeito que treina exaustivamente para aprimorar os dons que a natureza lhe deu, seja no esporte ou nas mais diversas expressões artísticas. Isso é de fato algo grandioso, que merece destaque na imprensa quando bem sucedido. Já o ato de heroísmo é aquele quase sempre praticado por alguém do povo, que decide agir com bravura numa fração de segundos. É quase sempre movido por gestos de humanidade, mesmo sem se dar conta do risco a que está se submetendo.

É curioso notar que um ídolo normalmente é elevado a condição de herói e mantém seu lugar no “Olimpo” até quando perdure o interesse da mídia. Durante esse período, tem a oportunidade de engordar a sua conta bancária e ocupar as principais manchetes. Quando morre, é reverenciado pelos órgãos de comunicação e sua perda é lamentada por outras pessoas que, na maioria das vezes, também já se beneficiaram de exposições na imprensa.

Já o cidadão comum, quando comete um verdadeiro ato de heroísmo, nunca alcança a condição de ídolo, sendo condenado ao ostracismo. Seu padrão de vida será o mesmo de sempre e o interesse dos jornais e revistas, quando acontece, é de umas poucas linhas no rodapé de uma coluna qualquer, mantendo-se para sempre no anonimato, até que a morte o leve daqui, sem que tenha recebido o merecido reconhecimento.

Para finalizar, por falar em termos usados pela imprensa, eu destacaria um outro, que tem sido largamente publicado: “Congresso”. Hoje em dia por causa dos senadores, outrora por mazelas de deputados. Lembro-me que quando adolescente era guarda-mirim no CENA - Centro de Energia Nuclear na Agricultura, em Piracicaba-SP, trabalhando como uma espécie de “office boy”. Uma das minhas funções era entregar correspondências aos pesquisadores, nos diversos departamentos. Era comum ver cartas do exterior relativas aos mais variados tipos eventos. Era Congresso Latino-Americano, Congresso Ibero-Americano, Congresso disso, Congresso daquilo. Eu sentia imensa admiração e respeito por aqueles “congressistas”.

Hoje o termo está tão desgastado, porque não dizer deteriorado, que, pelo que parece, os pesquisadores e cientistas resolveram optar por chamar tais eventos de Seminários, Simpósios ou Conferências, talvez por não carregarem o rótulo pejorativo de “congressistas”.
Aí você perguntaria: o que tem a ver “ídolo” e “herói” com “congresso”?

De fato, rigorosamente nada. No Congresso Nacional não temos nenhum ídolo, muito embora na reeleição de muitos deles fique caracterizada uma certa idolatria de parte do eleitorado. Heróis, com certeza nenhum deles é. Pelo contrário, a maioria está mais para “anti-heróis”, ou porque não dizer, “vilões”.

Eu poderia dizer que a única relação entre o início e o final do texto, é que agora eu chego a conclusão de que realmente estamos precisando de um herói... Mas herói de verdade... Aliás, super-herói... Se bem que eu creio que apenas um não conseguiria dar conta de tantos inimigos do povo. O melhor seria que tivéssemos muitos super-heróis, já que o que mais temos ouvido ultimamente é que existem maracutaias de congressistas “saindo pelo ladrão”.

Ladrão???... Opa!!!

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini

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Este texto está disponível na intranet do Banco do Brasil S/A - Acesse Sua Área - Cadernos - Palavras Cruzadas, publicado pela VITEC-Brasília em 10/09/2009 e acessível para mais de 100.000 funcionários.
Muito embora tenha sido publicada em 2009, entendo que o conteúdo é pertinente, já que estamos em plena época de eleições, onde muitos tendem a buscar por heróis nessas ocasiões.
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