Aprendemos desde criança a cumprimentar as pessoas com quem nos relacionamos, primeiramente com um informal “oi”,
depois, mais crescidos, com os habituais “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”.
Conversando com aquelas mais vividas,
tomei conhecimento que, antigamente (bem antigamente, mesmo), pronunciar esses
cumprimentos era algo que vinha mais do coração. Mais do que um simples gesto
de gentileza, era o desejo de que a outra pessoa tivesse realmente um bom dia,
por exemplo.
Com o passar do tempo, o desejo passou a
ser uma cortesia e esta, por sua vez, passou a ser somente uma formalidade
qualquer, de tal maneira que muitas vezes nem nos damos conta de quem estamos
cumprimentando, pois nem sequer olhamos nos olhos um do outro. Assim, o então “bom
dia” acabou se reduzindo num “... dia”, a fim de tão somente se cumprir uma
imposição social.
No último dia 22, eu estive no Instituto
de Mama de Piracicaba, acompanhando uma pessoa muito próxima, que está se
recuperando de procedimentos cirúrgicos e tinha uma consulta marcada para
aquela data. Quando lá cheguei, cumprimentei as duas secretárias, que já nos
conhecia (aliás, sempre muito atenciosas com todos), mas não foi possível cumprimentar
a todos, uma vez que a sala de espera estava tomada de outros pacientes, com
respectivos acompanhantes.
Uma das secretárias pediu que fizéssemos
a gentileza de aguardar, pois aquele era o último dia do ano de atendimento
médico e, além das habituais consultas, muitos dos pacientes que lá estavam
iriam passar por tratamento quimioterápico.
Ao lançar um olhar pela ambiente, era
possível ver mulheres de várias idades e muitas delas com cortes de cabelo
pouco convencionais. Algumas com cabelos bem curtos, outras com a cabeça
raspada e outras, ainda, usando algum tipo de aplique, fato esse que só tomamos
conhecimento depois que algumas delas assim se manifestaram, com quem eu
acompanhava.
Lembrei-me, então, de uma frase que li,
não me lembro onde; “a vaidade de uma mulher brota da raiz de seus cabelos”. Levando-se
em conta essa máxima, podia-se notar que todas elas (todas mesmo!) haviam
abdicado de sua vaidade e fizeram vir à tona uma força visivelmente maior do
que os problemas que enfrentavam.
Mas o que mais me chamou a atenção foi
um outro detalhe muito importante. Cada vez que terminavam de ser atendidas, ou
por algum médico nos consultórios, ou saindo da sala destinada à quimioterapia,
elas passavam pelas secretárias e as cumprimentavam com um forte abraço.
Antes de ir embora, porém, todas elas,
sem exceção, olhavam para as pessoas que estavam na sala de espera (lotada,
repito) e, em razão da época do ano, acenavam para os presentes, desejando a
todos um “Feliz Natal” e um “Feliz Ano Novo”, com um brilho especial nos olhos
e uma sinceridade muito diferente do nosso “bom dia” convencional. Para um
observador mais atento, aquilo foi uma experiência por demais emocionante.
Diante de tudo isso, podemos constatar
que aquele pequeno grupo (e não apenas essas pessoas) representa uma singela amostra do comportamento humano. Somente quando está diante de situações extremas é que o ser humano se lembra de ser solidário. Quando se vê às voltas com algo que pode fazer
referência à morte, as pessoas são capazes de olhar para seus semelhantes com a
humanidade que deveria ser comum no convívio diário. Chega a ser irônico notar
que são muito mais os aspectos voltados à morte que nos faz refletir sobre a
vida. Entretanto, quando devidamente saudáveis, nosso alvo passa a ser um certo
incômodo pela existência “do outro”.
Na nossa rotina, fomos de certa forma adestrados "que viver
é competir", ser melhor em algum aspecto e ser mais bem sucedido que “o outro”, considerado
um adversário (ou, em alguns casos, um inimigo) a ser batido. De acordo com o
ponto de vista dos segmentos estritamente comerciais, viver nos dias de hoje é,
de certa forma, estimular a prevalência sobre o outro, tido por muitos mentores
do mundo competitivo atual como um concorrente, ou um “grande obstáculo” a ser superado.
Minha particular lição de final/começo
de ano é que tenhamos, acima de tudo, um olhar capaz de espargir saúde, quando
lançado na direção do outro, e que eventuais diferenças sejam vistas apenas
como normais características divergentes de “um outro eu”.
Que os cumprimentos de "Feliz Ano Novo" sejam diferentes dos já desgastados "bom dia". Que sejam um desejo intenso e sincero e não um balbuciar automático de palavras vazias, conforme fomos devidamente condicionados ao longo de nossa vida.
AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: O texto acima pode parecer ingênuo, recorrente ou utópico. Mas ele reflete a maneira de como costumo ver o mundo, dentro de minha limitação,com meus acertos e equívocos, comum à qualquer pessoa. E os finais de ano, em especial, me remetem obrigatoriamente à John Lennon: "você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único". Sou, portanto, um sonhador assumido e dentro dessa visão utópica, me socorro do escritor irlandês Oscar Wilde, para quem "o progresso não é senão a realização das utopias". Para finalizar, o que me refiro, em particular, é sobre o progresso humano. Utópico?... Será mesmo?
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