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segunda-feira, 11 de julho de 2016

CINEMA:

Gênio indomável

1 – INTRODUÇÃO:
O filme Gênio indomável (Good Will Hunting) é uma produção estadunidense de 1997, dirigido por Gus Van Sant, tendo sido indicada em oito categorias ao Prêmio Oscar de 1998, ganhando a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, pela atuação de Robin Williams, e Melhor Roteiro Original. Um destaque que vale a pena ser feito é o fato de que os astros Matt Damon e Bem Affleck são os roteiristas desse filme, além de atuarem nele.
Trata-se de um drama que narra a história de Will Huntig, interpretado por Matt Damon, um jovem superdotado, com talento matemático incomum, que trabalha como faxineiro na Universidade de Boston, quando o Prof. Lambeau desafia seus alunos, expondo no corredor por onde os alunos transitam, um teorema complexo para ser resolvido.
Assim, devido às suas habilidades, Hunting, que não era aluno da Universidade, consegue facilmente encontrar a solução matemática, contudo sem se identificar, deixando intrigado o professor desafiante, que deseja a todo custo conhecer quem seria o prodigioso autor da façanha.
Porém, quando descobre de quem se trata, acaba por encontrar uma pessoa, que apesar de muito inteligente, possui sérios problemas de adaptação social.

2.1 – QUEM SOU EU?
Os primeiros questionamentos filosóficos foram, sem dúvida, as três perguntas cruciais: “quem eu sou?”, “de onde vim?” e “para onde vou”. Essas questões não só originaram a busca do homem pelo conhecimento, como também continuam a ser objeto de reflexões sobre a natureza humana nos dias de hoje.
Ao mostrar a vida de Will Hunting, um jovem órfão, com poucos recursos financeiros e possuidor de uma capacidade intelectual incomum, o filme quer abordar o que talvez venha a ser a primeira questão existencial, já que o protagonista tenta se esquivar de todas as formas de se submeter às seções com psicólogos, cuja finalidade é descobrir quem na verdade seria esse sujeito com tamanho potencial. 
Ao longo da história, o Prof. Lambeau coloca o jovem em contato com alguns psicólogos, também com a intenção de frear seu instinto violento, além de procurar integrá-lo à vida social, o que também não deixa de ser uma forma de entender melhor seu comportamento. Hunting, entretanto, se utiliza de constante doses de ironia para dificultar qualquer possibilidade de um relacionamento harmônico com os profissionais de psicologia, numa atitude de auto-defesa para se esconder de seus reais problemas, que envolvem raiva, agressividade e distanciamento social.
Assim, apesar de o jovem possuir um conhecimento lógico-matemático invejável, portanto, uma questão considerada externa, quando se trata de seu interior, mostra-se um estranho a si próprio, lançando mão de artifícios para se manter nessa condição. Para Sócrates, a busca do conhecimento não tinha como único objetivo um acúmulo de informações pessoais. Com sua célebre frase “conhece-te a ti mesmo”, objetivava principalmente o autoconhecimento, que propiciaria também o conhecimento do universo.
Mais tarde, ainda na Grécia antiga, Aristóteles dizia que o homem é por natureza um ser social, ou, um animal social, pois se trata de um ser muito frágil para viver sozinho. Todavia, suas relações com a sociedade são pautadas por questões e particularidades que abrangem diferenças individuais, que só poderão ser lapidadas no próprio exercício da convivência com o outro.
Mais recentemente, na primeira metade do século XX, o filósofo francês Jean-Paul Sartre dizia que o homem é um projeto que vive subjetivamente. Aquilo que quer ser é uma escolha e, ao se submeter ao ato de fazer uma escolha, está diante não somente o que deseja ser, mas, segundo seu ponto de vista, está indiretamente julgando como todos os homens devem ser. Então, ao perceber que sua escolha envolve também toda a humanidade, ele se sente angustiado.
Dessa forma, se por um lado o ser humano vive o dilema de querer saber quem é, por outro lado, conforme também menciona Sartre, ele vive a angústia de ter a consciência de que aquilo que deseja ser envolve não somente a si mesmo, mas tem interferência em toda a humanidade. Ainda, de acordo com o filósofo francês, só o ser humano de má fé consegue disfarçar a sua angústia.
No caso do personagem Hunting, retratado no filme em questão, ele vive um claro desajuste social, movido por suas angústias pessoais e fugindo a todo custo de qualquer possibilidade de encarar a si mesmo.

2.2 – GÊNIO OU TALENTOSO?
Embora o título “Gênio indomável” seja uma tradução brasileira do original “Good Will Hunting”, é interessante levantar a questão se o correto seria o uso do adjetivo “gênio” para pessoas que possuem altas habilidades individuais, como a mostrada o filme. Para muitos, o termo que melhor se adequaria ao caso do personagem seria “talento” e não propriamente “genialidade”.
De acordo com o livro “Talento e superdotação: problema ou solução?”, o autor M. L. P. Sabatella destaca que a versão para do título adotado no Brasil estaria equivocada. Segundo sua teoria, deveria ser reconhecida como gênio a pessoa que tivesse dado uma contribuição original e de grande valor, cuja sua produção ou contribuição fosse capaz de provocar transformação em um ou mais campos do conhecimento, mudando conceitos vigentes e perdurando por gerações seguintes. Sendo assim, somente pessoas com o quilate de Einstein ou Leonardo da Vinci, por exemplo, deveriam ser adequadas à terminologia “gênios”. Segundo o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, “talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem”.
No caso do filme, fica fácil perceber que não seria o caso de enquadrar Hunting como “gênio”, uma vez que ele seria apenas um indivíduo dotado de uma capacidade lógico-matemática elevada. De acordo com o desenrolar da história narrada, o protagonista não esboçou sequer novas teses ou teorias relevantes. Apenas demonstrou possuir uma habilidade incomum aos jovens de sua idade, especialmente por não ter acesso aos mesmos ensinamentos acadêmicos que os demais.
Com relação aos chamados “superdotados”, um dos grandes desafios dos educadores talvez seja identificar alunos com essa característica. Sabe-se que esse tipo de estudante, por se sentir diferente, costuma ter dificuldade de relacionamento interpessoal, tendendo a ser introvertido e com conseqüente isolamento. Tal comportamento, além de comprometer seu convívio social, pode ser um obstáculo para melhor aproveitamento de seu potencial intelectual.
Eventual sub-aproveitamento escolar poderá desmotivar alunos com altas habilidades, uma vez que não se sentirão estimulados, levando-os a aprender menos do que estariam aptos a assimilar com conteúdos mais condizentes com a capacidade que possuem. Segundo Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Dessa forma, podemos ter uma ideia da complexa, mas, ao mesmo tempo, desafiadora arte de educar.

3 – CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Sem dúvida, um filme que nos leva obrigatoriamente a uma reflexão acerca da natureza humana. Primeiramente, uma auto-análise, refletindo sobre nosso comportamento pessoal na vida em sociedade, questionando sobre nossas potencialidades e encarando nossas fraquezas e medos.
Em segundo lugar, lançar um olhar sobre as pessoas com quem temos convivência mais próxima, visando detectar eventuais problemas de relacionamento e criar condições para que dificuldades interpessoais possam ser dirimidas, se for o caso, com ajuda de profissionais de áreas como a psicologia, por exemplo.
Para futuros educadores, atentar para as características individuais de cada estudante, possibilitando minimizar todo tipo de desajuste ou isolamento e, especificamente com relação aos alunos com altas habilidades, procurar orientação para direcionar e melhor aproveitar das altas habilidades observadas.
Um filme, com certeza, no rol dos chamados “obrigatórios” para um melhor dimensionamento das diversidades presentes no espírito humano.

4 – REFERÊNCIAS:
- Site “Revista Eletrônica de Ciências”, da Universidade Federal de São Carlos-SP, Link: <http://www.cdcc.sc.usp.br/ciencia/artigos/art_26/sartre.html>, acesso em 02 mai 2014.
- Site da Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Educação/CE, Link: <http://coralx.ufsm.br/revce/ceesp/2005/01/a5.htm>, acesso em 15 jul 2014.
- Site “Periódicos Eletrônicos e Psicologia”, da PUC-SP, Link: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1414-69752012000200010&script=sci_arttext>, acesso em 18 jul 2014.
- Site “Pensador UOL”, Link: <http://pensador.uol.com.br/>, acesso em 15 jul 2014.

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TEXTO: Paulo Cesar Paschoalini
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COMENTÁRIO: Trabalho desenvolvido para ser apresentado como componente curricular de AACC - Atividade Acadêmica Cultural e Científica, durante a graduação em Licenciatura em Filosofia, pela Faculdade "Claretiano - Rede de Educação", Polo de Rio Claro-SP.
A publicação no blog é uma sugestão para quem ainda não assistiu ao filme, além de ser também um convite para aqueles que já o assistiram, para tornarem a vê-lo, agora sob uma análise filosófica. A violência reinante em nossa sociedade é em razão de diversos fatores coletivos e individuais. Dessa forma, todo e qualquer tipo de reflexão sobre o assunto é bem vinda, a fim de propiciar uma visão mais ampla sobre a convivência humana.
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