Paulo Cesar Paschoalini

Paulo Cesar Paschoalini
Pirafraseando

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quarta-feira, 31 de março de 2010

MINHA CRÔNICA:


Senhor da razão

Quando menino, lembro-me que o tempo passava devagar e, como toda criança, tinha pressa de crescer, de ficar adulto. Fui me formando nos chamados graus escolares e procurando galgar os degraus que a vida me apresentava. Alguns ainda almejo; outros, porém, nunca quis.


Dentre as coisas que ouvi na vida, uma das mais marcantes foi, sem dúvida, que nós devemos fazer do obstáculo um degrau e não do degrau um obstáculo. Entretanto, ninguém nunca me disse como fazer para seguir quando nossas passadas são muito menores do que o obstáculo a nossa frente.

Sou de uma família de descendente de italianos, composta por pessoas que têm o coração maior do que a própria estatura. Tenho a satisfação de me encontrar com irmãos, cunhadas e sobrinhos em quase todos os aniversários que eles completam.

Na questão profissional, entrei no Banco do Brasil há 30 anos, mas parece que nem faz metade desse tempo. Pude sentir de perto a desvalorização da profissão de bancário. Na empresa, conheci cerca de meia dúzia de indivíduos, cujas atitudes lamentáveis não pareciam próprias de ser humano, em especial no trato com subordinados. Porém, uma infinidade de pessoas maravilhosas, muitas delas meus amigos particulares, que compensaram a minoria mencionada. Trabalhei com gestores com tanta obsessão por números, que nunca se deram conta que lidavam com gente. Em contrapartida, administradores que atingiam com competência os objetivos do Banco, com prioridade no relacionamento pessoal. Dos primeiros eu mal lembro dos nomes; os demais são inesquecíveis.

Ao longo dos meus 50 anos, completados agora em março, fica fácil perceber que “homo sapiens” tem se tornado cada dia mais um ser tecnológico do que humano. É triste saber que, hoje em dia, a população de um determinado lugar é medida muito mais pelo número de consumidores em potencial do que propriamente pelo de habitantes. Vejo que, na ânsia por um consumo desenfreado, o mundo está sendo consumindo pela ansiedade. Sinto que o dinheiro é como um vírus capaz de até mesmo matar, mas as pessoas não se importam em viver em constante estado febril. Tenho observado que a paz tem sido o intervalo entre as guerras, quando deveria ser um estado de espírito. E o pior disso tudo, é que fica fácil constatar todas essas deficiências nos outros seres humanos, mas é relativamente difícil consertar os nossos erros, por menores que sejam.

A vida chegou a causar algumas feridas, muito mais internamente do que à flor da pele, mas todas já foram devidamente cicatrizadas pelo tempo. Sei que devo ter magoado muita gente e, mesmo sem ter intenção, não tive o devido tempo para me desculpar. Por outro lado, muitas me feriram também sem querer e, sendo assim, meu coração já se encarregou perdoá-las. Se parar para pensar com atenção, verei que maioria das pessoas que cruzaram o meu caminho nem sequer se deram conta da minha existência, assim como devo ter ignorado um número expressivo de seres humanos que permearam minha caminhada.

No que se refere à vida particular, tendo muito mais a agradecer do que pedir. Vivi emoções maravilhosas, dentre as quais eu destacaria o meu casamento e o nascimento de minha filha. Tudo isso pode parecer piegas, mas todas as noites sou grato por fazerem parte da minha vida e não me imagino mais sem elas. Olho o mundo à minha volta e vejo uma grande quantidade de pessoas que não conheceram os pais, ou não tiveram a oportunidade de conviver com eles. Eu, entretanto, chego aqui tendo ambos vivos, próximos de mim e, dentro do possível, com saúde. Considero que isso seja uma benção que deva ser agradecida continuamente. Entre os revezes da vida, sobrevivi a cada perda de entes queridos para depois, a cada dia, morrer de saudades de todos eles.

Como a sociedade gosta de rótulos, agora sou o que chamam de “adulto maduro”, ou “meia idade”. Estatisticamente, já passei da metade de minha trajetória, mas aprendi com a vida que não devo confiar tanto assim em dados estatísticos. Cansei-me de conceitos pré-estabelecidos, mas sei que vivo envolto numa atmosfera de ilusão ao pensar que estou começando a segunda metade. Talvez isso sejam coisas do tal instinto de sobrevivência.

Apesar de boa parte de meus cabelos brancos dizerem o contrário, sinto-me ainda um garoto. Freqüentemente rolo com minha filha pelo tapete da sala e fico em dúvida se isso agrada mais a ela do que a mim. Nos finais de semana, continuo a “bater uma bolinha” com os amigos e agradeço a eles pelo fato de me fazerem pensar que o que faço em campo ainda pode ser chamado de futebol. Sou grato também pela convivência com eles por mais de 20 anos. Assim como as redações do tempo de escola, sigo escrevendo meus textos e é bom saber que existem pessoas que se interessem em lê-los, agora sem me preocupar com notas, embora sujeitos a críticas.

Muitas vezes o menino que mora dentro de mim tem dificuldade em imaginar que cinco décadas já passaram pela retina. Pensava que a essa altura saberia tudo sobre a vida, mas vejo que sou um eterno aprendiz no que se refere ao mundo e, principalmente, a meu próprio respeito. Se eu tivesse que definir “meio século”, eu diria que é um período que passa depressa demais.

Para finalizar, certa feita li uma frase, que desconheço a autoria: “o tempo é o senhor da razão”. Pois constantemente reflito e questiono sobre seus propósitos. Acredito que esse tal “senhor” deva ter lá suas razões para insistir que a vida continue a me reservar ainda essas incontáveis emoções que me acompanham.
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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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- Este texto está disponível na intranet do Banco do Brasil > Acesse Sua Área > Cadernos > Palavras Cruzadas, publicado pela VITEC-Brasília em 09.04.2010 e acessível a mais de 100.000 funcionários.
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

MINHA CRÔNICA:


Mais do mesmo

Um novo ano começa e com ele mais uma edição do Big Brother Brasil, o famoso BBB, que a meu ver bobagem em dose tripla, ou outra coisa com “b” que o leitor entender que seja mais apropriada. E está em sua 10ª edição, portanto uma década de sucesso, segundo a emissora. Vamos por esse reallity show num recipiente e “espremer para ver se dá algum caldo”.

Primeiramente, é inevitável o questionamento a respeito do que faz desse tipo de programa um sucesso. Não se pode negar que a emissora sabe trabalhar muito bem a propaganda antes da estréia, gerando uma certa expectativa. Mas o que leva grande parte do público a fixar o olhar na televisão durante a exibição de programas dessa natureza?

O que se vê são diálogos inconsistentes de pessoas vivendo uma falsa rotina, diante de olhares curiosos de expectadores ávidos por cenas mais íntimas, envolvendo participantes dotados de atributos físicos que atraem a atenção do público. Talvez esse apelo estético seja o mais explorado, justamente porque quase nada se pode esperar dos candidatos com relação ao nível intelectual, já que eles têm muito pouco a oferecer nesse quesito.

Depois de algum tempo, o telespectador se vê revestido de poder suficiente para decidir o destino dos participantes, contrastando com a incapacidade que muitos têm de resolver a própria vida. Sente-se importante contribuindo na escolha daquele que vai ganhar uma considerável soma em dinheiro no final de algumas semanas, mas faz muito pouco para mudar a sua condição de assalariado mal remunerado de todo mês.

Questiona-se quem dentre os participantes será eleito o(a) mais simpático(a), o(a) mais bonito(a) ou o(a) mais sexy, mas não acerca do destino que está prestes a ser traçado por candidatos políticos num ano eleitoral que promete ser “quente”. Não se dá conta de que aquele que será escolhido no final programa não mudará em nada a sua vida. Em contrapartida, aquele que será realmente eleito nas urnas poderá decidir nos próximos anos sobre assuntos mais relevantes como educação, segurança, saúde, ou até mesmo determinar se muitos continuarão empregados ou não.

Sem poder interferir diretamente na estrutura televisiva, o público não tem a consciência de que é capaz de influir na grade de programação das emissoras, simplesmente se recusando a assistir a programas como esse. Ao invés disso, o telespectador se acomoda confortavelmente em sua poltrona e se sujeita ao papel de um “voyeur” compulsivo em busca de cenas picantes, ou acompanhando atrações de gosto duvidoso, que possam dar um certo tempero à vida insossa que normalmente muitos costumam levar.

Como âncora disso tudo, temos Pedro Bial, um sujeito que 1989 se notabilizou ao fazer a cobertura de um momento histórico para o mundo, que foi a queda do Muro de Berlin, na época, com reportagens de alto nível. No entanto, a carreira desse até então jornalista de renome veio a ter o mesmo destino do muro em questão. Seu nível de participações televisivas caiu tanto que hoje não passa de um apresentador de programa de futilidades. É de se lamentar que ele não seja o único a trilhar esse caminho, na conta-mão daquilo que se espera de uma programação com um mínimo de qualidade. Muitas outras pessoas que gozavam de respeito na televisão partiram para essa nova opção do “pagando bem, que mal tem”.

Talvez esse tipo de programa represente o retrato fiel do que tem sido a TV brasileira nesses últimos anos. Uma fábrica de alienação coletiva capaz de ditar normas, comportamentos e costumes àqueles que se submetem passivamente a esse fim. O telespectador constantemente se entrega a modismos da “telinha” e passa a se sentir “um poço de sabedoria” simplesmente por assistir a programas líderes de audiência, ou por saber cada vez mais das últimas novidades dos bastidores das emissoras.

Quem vai ganhar? É fácil de responder. Nesse tipo de programa todos os participantes saem ganhando de alguma forma. Por não serem artistas, passam a ocupar um considerável espaço na mídia. Alguns conseguirão ser capa de revistas dos mais variados gêneros, cujo conteúdo se assemelha ao nível do programa, e, assim, saem do anonimato e conseguem aqueles tais “15 minutos de fama”, que, na maioria das vezes é efêmera. É incrível como as emissoras de TV conseguem a proeza de dar notoriedade a pessoas nada notáveis.

Quem sai perdendo? Também não é difícil de responder. Mais uma vez o público perde o seu tempo assistindo a um programa que “vai do nada para lugar nenhum”, sem acrescentar algo de concreto à sua vida. Portanto, veremos que depois de “espremer” essa atração, “nada de caldo” e o telespectador como sempre acaba ficando com o “bagaço”.

Dessa maneira, na ânsia de conseguir índices de audiência a qualquer custo, as emissoras continuam apresentando cada vez mais do mesmo, com a mesma falta de conteúdo de sempre. E assim, enquanto a TV vai vendendo os seus produtos, o telespectador continua sendo um comprador de ilusões... ou desilusões?!
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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
- Texto original publicado na página A-2 do JORNAL DE PIRACICABA, de 03.04.2002
- Texto atualizado para edição em 2010.
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- Este texto está disponível na intranet do Banco do Brasil > Acesse Sua Área > Cadernos > Palavras Cruzadas, publicado pela VITEC-Brasília em 03.02.2010 e acessível a mais de 100.000 funcionários.
- Texto original, do mesmo autor, publicado na pág. A-2 do "JP", em 03.04.2002. Um agradecimento especial a Joacir Cury, na época Editor Chefe do Jornal de Piracicaba, pela publicação da crônica.
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domingo, 10 de janeiro de 2010

MINHA CRÔNICA:


Recomeçar

Li a crônica do Adalberto Inácio Gonzaga da Silva, de Brasília, no caderno "Crônicas", que circula na intranet do Banco do Brasil, cujo título é “Doze”, publicada no dia 29/12, que se refere aos diferentes aspectos do número doze, em especial quando se relaciona ao tempo. Achei muito interessante o texto. Aliás, como ele costuma fazer quando escreve, foi um convite a uma reflexão, que despertou em mim um questionamento: se o “12” exprime, de certa forma, um final, ou um preparo para uma nova etapa, o que de fato melhor representaria de forma emblemática um recomeço? Naturalmente, a primeira coisa que me veio à mente foi o número “1”, como não poderia deixar de ser.
Que me perdoem os fãs de numerologia e afins, mas será que vivemos num mundo onde os acontecimentos são exclusivamente regidos por números? Ou ainda: seria o “primeiro de janeiro” realmente um recomeço, só por carregar por si só o primeiro dia, de um primeiro mês, de um primeiro ano? Ainda: Será que somente a virada da “folhinha”, a mudança de data, indicaria definitivamente uma verdadeira nova fase em nossa vida?
Lembrei-me, então, de um texto de Drummond:

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,

a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra diante vai ser diferente.”

Recorro, agora, a outro autor consagrado, nesse caso o compositor Ivan Lins, cuja música “Começar de novo”, em parceira com Vítor Martins, começa com os versos:

“Começar de novo e contar comigo,
vai valer a pena ter amanhecido...”


Muito embora a letra esteja relacionada especificamente a um amor que se foi, entendo que esse trecho traga com ela o que poderia ser classificado como sendo a essência de todo e qualquer recomeço. Ainda que tenhamos em nosso convívio pessoas que nos ajudam ou nos acompanhem em cada etapa de nossa vida, penso que o ato de começar de novo guarde estreita relação com o ter força, sabedoria e equilíbrio suficientes para poder “contar consigo mesmo” a cada novo amanhecer. É quase sempre uma questão de atitude.
Todos nós sempre estamos às voltas com “recomeços”. Quando se trata da questão profissional, por exemplo, pode ser um novo setor, uma nova função, ou mesmo uma nova agência. No caso de algumas pessoas, ainda, uma nova empresa para um novo trabalho. No terreno pessoal, cada um tem lá as suas particularidades, nos mais diferentes segmentos.
A palavra mais ouvida nessas ocasiões é provavelmente a esperança. Para muitos essa palavra é apenas um derivado da palavra “espera” e ficarão de forma acomodada somente aguardando o desenlace dos acontecimentos, muitas vezes reclamando de sua sorte. Outros, no entanto, mais do que ficar na expectativa como meros observadores, veem a esperança como sendo a fé, a confiança em iniciar projetos pessoais que se propõem a torná-los reais. Esses últimos, na maioria das vezes tendem em alcançar grande sucesso ou, na pior das hipóteses, pequenos progressos e serão chamados de “sortudos” por aqueles que apenas esperam embalados pela inércia.
Mais uma vez Drummond, no poema “Receita de ano novo”:

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”


Portanto, se ancorarmos nossos desejos apenas no “esperar” e não tivermos intenção, disposição e principalmente ação, aquilo que poderíamos chamar de “um novo tempo” estará fadado a ser mais uma “perda de tempo”. Como sentencia “o poetinha”, temos que fazer por merecer um ano novo.
Por essa razão, eu gostaria de desejar a todos vocês que dedicam o seu tempo em ler com atenção aquilo que me proponho a escrever, muito mais do que um “Feliz Ano Novo”, já que todo ano que começa já é por si só um fato novo. Meu desejo é que todos os leitores tenham um “Feliz Novo Tempo”. Que a fronteira entre seus sonhos e a realidade seja tão somente o firme propósito de querer.
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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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- Este texto está disponível na intranet do Banco do Brasil > Acesse Sua Área > Cadernos > Palavras Cruzadas, publicado pela VITEC-Brasília em 13.01.2010 e acessível a mais de 100.000 funcionários.
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domingo, 4 de outubro de 2009

MINHA CITAÇÃO:


Experiência

“Nós não envelhecemos.
Na verdade, o tempo
apenas aplica diariamente
uma camada de experiência
sobre a nossa pele.”
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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini (Escrita em 13.06.2002)
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MINHA POESIA:


Faz-de-conta

Outro dia mesmo estava me divertindo,
assim meio descuidado, meio distraído,
e pelas brincadeiras de infância atraído.

Vieram outros dias, outras noites,
e, então, o tempo, sorrateiramente,
foi levando para longe de mim, dia após dia,
o pião que fazia girar as minhas fantasias;
as bolinhas de sabão, que eram meu alento,
foram desmanchando-se ao sopro do vento.

O faz-de-conta, os pés descalços, as “partidas”,
o “bate-bola” nos campinhos de terra batida;
as alegres brincadeiras de “esconde-esconde”,
me escondiam do mundo adulto, não sei onde.
Enfim, até me dar conta de que chegou o dia
que esconder já não mais conseguia.

Eu não gostei de ter crescido, realmente.
Vez por outra eu me perco à minha procura.
Eu queria ter de novo aquela estatura,
aquela inocência, aquela candura.
Não queira esse mundo de loucura,
onde a verdade se vai e a mentira perdura.
Eu queria ser um menino eternamente.

Na verdade sou criança, apesar da aparência,
e luto para não ser adulto, com veemência,
para não adulterar de vez a minha essência.

O pião perdeu-se num mundo que continua a girar,
as bolinhas de sabão desfizeram-se de vez pelo ar
e nas ruas asfaltadas meus pés calçados vêm pisar.

Mas eu sigo brincando de esconde-esconde, contudo,
com o tempo que insiste em transformar tudo;
faz de crianças felizes, adultos sisudos.

Meu corpo de adulto pelo tempo foi esculpido,
embora me sinta criança, num corpo crescido,
com roupas de adultos, mas espírito despido.

Quanto mais ele muda, mais me contraponho,
pois muda um reino encantado de sonhos,
em um mundo ainda mais infeliz e tristonho.

Cresci e não gostei; isso me desaponta.
Por isso mantenho esse desejo oculto,
insistindo em brincar de faz-de-conta,
“fazendo-de-conta” que sou adulto.


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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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PREMIAÇÕES:
– Menção Honrosa no “X Concurso Nacional de Poesias-APLA”, da Academia Pontagrossense de Letras e Artes, da cidade de Ponta Grossa - PR.
– 7ª colocada no “XXXIX Festival de Música e Poesia – FEMUP 2004”, da Fundação Cultural de Paranavaí - PR, declamado por Bruna Boaretto, em 20/11/2004, noite de premiação do evento.
– Texto apresentado nos dias 15, 16 e 17/09/2006, no Teatro Municipal “Dr. Losso Neto”, em Piracicaba, durante do show "Simplesmente", do grupo musical "Falando da Vida", interpretado por Nelma Nunes, atriz que participa de espetáculos em Piracicaba e região.
Poesia publicada novamente no Blog em 03 de setembro de 2015, por ocasião da seleção do texto no "XIII Prêmio Escriba de Poesia", da cidade de Piracicaba-SP.
ATENÇÃO: Ao fazer uso de algum tipo de aplicativo para Tradução, é possível que o texto traduzido não seja necessariamente fiel ao original, já que cada idioma tem a sua particularidade, principalmente quando se tratar de conteúdo poético.
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MEU CONTO:


Um canto de liberdade

Os primeiros raios de sol começaram a iluminar o ninho que construí sobre a velha figueira, onde eu dormia, e me fez despertar. Assim que me pus em pé, agitei as asas e toda a plumagem amarelada para me espreguiçar melhor. Tudo indicava que era mais um dia normal ali naquele bosque. Parecia que seria novamente uma sucessão de horas e mais horas voando feliz pelo reino da Terra.


Voei, então, até o regato que contornava algumas árvores e caminhava pela mata desviando-me das pedras que permaneciam estáticas em seu leito. Beberiquei daquela água cristalina para saciar a minha sede matinal. Em seguida, saí para voar através daquele verde que a natureza plantou à minha volta e, enquanto batia as asas, eu engrossava o coral de cantoria que a passarada entoava toda a vez que o dia amanhecia.

Era maravilhoso ter todo o tempo do mundo para brincar com o vento e depois saltitar de galho em galho, de árvore em árvore, fazer vôos rasantes ao solo, ou subir alto em direção ao azul do céu salpicado de algumas nuvens esbranquiçadas. A alegria irradiava de um horizonte ao outro e era possível sentir a tranqüilidade que se espalhava por todo aquele “bosque encantado”.

Apesar de viver feliz naquele lugar, eu tinha muita curiosidade em saber o que acontecia além dos limites da mata. Mas eu sempre fui desencorajado pelas andorinhas a ir até lá. Elas contavam que lá tinha uma cidade grande onde vivia o ser humano, um animal estranho, incapaz de entender e respeitar os outros animais. Contavam que o homem chegava a aprisionar e a matar algumas espécies só por prazer. As andorinhas disseram, também, que os humanos eram capazes até de matar uns aos outros. Era difícil para mim acreditar nessas histórias, pois já cheguei a ver poucas vezes alguns adultos em companhia de crianças andando pelas trilhas da mata e eles não me pareciam agressivos.

De repente, um alvoroço tomou conta do bosque. Era um sinal de alerta para todos se cuidarem pois o “bicho homem” se aproximava. Voei rapidamente até o ninho e permaneci lá imóvel e em silêncio. Eu pude ouvir as suas vozes quando passaram próximo de onde eu estava e seguiram em frente. Arrisquei espiar e vi que pararam perto dali por alguns instantes e logo mais foram embora. Assim que o perigo passou, todos os animais deixaram o seu abrigo e a vida voltou ao normal por toda a mata.

Só por curiosidade, sobrevoei o lugar onde eles permaneceram por algum tempo e vi alguns objetos estranhos que deixaram por ali. Como eram esquecidas essas pessoas! Foram embora e não se lembraram de levar tudo aquilo que trouxeram. Eu sei que os outros pássaros tinham me alertado para não me aproximar dos humanos, mas eu queria saber algo mais sobre eles. Já que eu não podia ir até a cidade, não deixaria de perder a oportunidade de ver de perto alguma coisa feita por eles. Além do mais, tudo que estava ali parecia inofensivo. Então, eu cheguei mais perto e observei os detalhes daqueles materiais estranhos que eles produziam.

Era ao mesmo tempo curioso e fascinante ver o que a mão humana é capaz de fazer. Objetos de madeira e arame colocados de forma estranha, dando aos materiais um aspecto interessante. Notei, também, que os homens tinham deixado para trás um pouco de comida perto dos objetos. Como era hora do almoço, não poderia deixar passar todo aquele banquete que estava à minha frente, com quitutes que eu jamais havia visto e dificilmente veria novamente. Fui dando uma bicada aqui, outra ali e tudo estava uma delícia. Então saltei na direção de uma caixa de pedaços de madeira com fios de arame, que tinha bastante alimento dentro dela.

Porém, para a minha surprêsa, assim que me ajeitei no poleiro, uma tampa de arame se fechou sobre mim e eu me vi prisioneiro. Comecei a piar, aos gritos, mas os poucos que se aproximavam não conseguiram me tirar de lá. Naquele momento compreendi como era assustador ver o que a mão humana é realmente capaz de fazer.

Permaneci preso por algumas horas até que os humanos voltaram. Ficaram felizes ao me verem no alçapão onde eu estava e me levaram dali em direção ao povoado. Aí, finalmente eu conheci a tal cidade. Um emaranhado de pedras sobrepostas, repleta de seres humanos apressados e preocupados em não perder tempo. No ar esfumaçado, um cheiro desagradável que em nada lembrava o perfume que as flores que existiam na mata exalavam. O homem é um animal muito estranho, pois onde ele mora quase não existe árvores por perto e é um absurdo ver que o pouco de verde que ainda resta no lugar ele mesmo se encarrega de ir destruindo.

Hoje eu estou preso já há algum tempo numa gaiola. Desde que fui trazido para cá, eu sinto muito medo quando uma pessoa chega perto de mim. Aos poucos eu passei a entender o que os humanos falam, muito embora eles não me entendem nem um pouco. Toda vez que alguém diferente me vê, sempre pergunta se eu sou um canário do reino ou da terra. Que diferença isso faz já que o meu reino é toda a Terra? Ou pelo menos era.

Quando eu expresso algum som, alguém se aproxima de mim e sorri dizendo que eu estou cantando alegremente. Como pode um ser que se diz inteligente achar que alguém que está preso é capaz de cantar feliz? Como pode alguém, que luta tanto por sua própria liberdade, fazer tanto para tirar a liberdade de outro ser vivo, só porque tem uma plumagem de coloração atraente e emite um som interessante? Seria o mesmo que um ser humano prendesse outro de sua espécie, simplesmente por ele se vestir bem e ter uma linda voz. Isso seria um absurdo, assim como não tem nenhum cabimento eu estar preso.

Os homens não percebem que o som que eu emito não é um canto. Algumas vezes é um lamento e outras, um gemido de dor. Porém, na maioria das vezes, o meu “cantar” é um grito, um clamor por liberdade. Nesses sons que expresso eu tento manifestar que muitas vezes eu sinto fome e frio. Mas o que mais me machuca é a solidão e, principalmente, a tristeza por ter sido feito prisioneiro apenas porque a natureza me fez encantador e indefeso.

Todos os dias eu olho em direção ao “bosque encantado” e às vezes choro por saber que nunca mais vou voltar a ver aquele lugar. E sempre que eu vejo o topo da copa das árvores que lá existem, que estão cada vez mais distantes de mim, eu me pergunto: Que mal eu fiz ao ser humano para ele me condenar à prisão perpétua?!

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AUTOR: Paulo Cesar Paschoalini
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– Menção Especial no “III Concurso Grandes Nomes da Nova Literatura Brasileira”, da cidade de São Paulo-SP.
– Selecionado no “Banco de Talentos 2003”, da Febraban.

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UMA CITAÇÃO...


Idades...

“Eu preparo uma canção
que faça despertar os homens
e adormecer as crianças.”

(Carlos Drummond de Andrade)

“Se eu soubesse
que iria viver tantos anos,
teria cuidado mais de mim.”

(Eubie Blake)

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COMENTÁRIO - Paulo Cesar Paschoalini:
Dessa vez não foi possível escolher apenas uma única citação. Na verdade, encontrei inúmeras frases que falam sobre o tempo, mais especificamente sobre a idade. Essas duas, no entanto, são para que possamos parar e refletir sobre nós e o tempo que nos acompanha, nas mais diversas etapas de nossa vida.
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